• Marcus Vinícius Beck

Sátira ousada

O Quê Assistir?


‘O Grande Ditador’ chega aos seus 80 anos num mundo que assiste à ascensão do discurso autoritário. Mas longa-metragem – para além do riso – é uma ode à democracia e às liberdades individuais

Chaplin em cena do filme ‘O Grande Ditador’. Foto: Reprodução


“Tempos Modernos” ou “O Grande Ditador”? E eu lá sei.


O que eu sei é: em um, a lenda do cinema Charlie Chaplin (1889-1977) zombou do sistema de produção em série fordista, implantado por Henry Ford na década de 1910. No outro, Chaplin riu da figura ridícula personificada pelo nazista Adolf Hitler quando o mandatário entrou na Segunda Grande Guerra – o filme foi lançado em 1940, e a humanidade a essa altura assistia paralisada ao horror do front europeu.


Maior sucesso de bilheteria do cineasta norte-americano, “O Grande Ditador” foi um ato de extrema coragem. A História nos mostra que Hitler ainda não mandara invadir a Polônia quando Chaplin resolveu ridicularizá-lo, partindo de um esquema satírico consagrado pela comédia anárquica “Diabo a Quatro” (1933), na qual o ator Groucho Marx vivia um ditador excêntrico da Freedonia, mas uma tirania sustentada pelas frustrações pessoais de um ex-capitão do exército dava suas caras na Europa.


Sim, era realmente assustador. E, mesmo assim, Chaplin mostrou ao mundo a farsa assassina do regime miliciano catorze meses antes do presidente dos States Franklin D. Roosevelt, que entrou na Guerra contra o Eixo após o Japão bombardear a base militar americana de Pearl Habor, em dezembro de 1941. Também foi o primeiro a denunciar o pogrom dos nazistas, embora não soubesse ainda da existência de campos de concentração responsáveis por exterminar judeus montados pelo Terceiro Reich.


Mas, vem cá, por que falar de “O Grande Ditador”? Bom, a resposta é bem simples: o clássico de Chaplin completa neste ano oito décadas, e o mundo se depara com uma faceta pós-moderna do autoritarismo – dessa vez repetida em sua versão memística. Guardadas as devidas proporções, naturalmente, figuras como Viktor Orbán, Donald Trump, Matteo Salvini e grupos extremistas no Brasil que pediram o fechamento do STF e do Congresso Nacional reacendem o sinal de alerta em relação à tirania.


Com estreia em Nova Iorque na noite de 15 de outubro de 1940, rapidamente a obra provocou elogios da crítica por causa da criatividade de um “artista verdadeiramente grande”. “E, de certo ponto de vista, talvez o filme mais significativo que já foi produzido”, elogiou o jornal The New York Times, em edição publicada um dia após a exibição da película nos cinemas americanos. Os escribas da cultura acertaram.



Do outro lado do Atlântico, à medida que os dias se passavam, a Grande Guerra se solidificava, e ninguém compreendia muito bem como fazer para deter as tropas alemãs: os espectadores, porém, foram confrontados com um conteúdo atual e ameaçador. O filme abre com um soldado atrapalhado que não consegue inserir um projétil explosivo num canhão. Essa era a primeira impressão sobre o primeiro filme sonoro de Chaplin, o que gerou espanto: precisava de um tema tão delicado?


Precisava, pois não havia saída. Assim como os dramaturgos Alfred Jarry, em “Ubu Rei” (1896), e Bertolt Brecht, na peça “A Resistível Ascensão de Arturo Ui” (1941), não a encontraram. Ou como o cineasta Stanley Kubrick em “Dr. Fantástico” (1964).


Talvez por não encontrar uma resposta efetiva e sentir necessidade de retratar o nazismo, Chaplin tenha sofrido avisos alarmantes. Todos de origem estranha. O escritório em Nova Iorque da produtora United Artists chegou a propor a suspensão dos trabalhos, com o objetivo de evitar possíveis tretas com o governo alemão e o emergente mercado cinematográfico do Velho Mundo. Simpático a Hitler, o governo argentino pressionou a Casa Branca a partir da insistente encheção de saco do embaixador da Alemanha, Dieckhoff, um cara de pau bem relacionado com os manda-chuvas de Hollywood. “O Grande Ditador” só foi exibido na Alemanha em 1958. Hitler morrera em 45.


Num rompante de estupidez sem qualquer senso de limite, como disserta o crítico cultural Sérgio Augusto em “A Sessão Vai Começar” (2019), o jornal inglês Daily News rotulou Chaplin como comunista. E dançando conforme a sinfonia nazista, a Legião Nacional de Decência, entidade religiosa que tinha como incumbência praticar a censura informal a produções audiovisuais por motivos estapafúrdios, recomendou que “O Grande Ditador” “era uma obra de propaganda nazista”. Segure-se para não rir dos motivos de tal ‘alerta’: uma cena em que a personagem Hannah (Paulette Goddard) pergunta ao barbeiro se ele crê na palavra divina, e ele responde “bem...”.


Fico com os ensinamentos do mestre André Bazin, editor-chefe da geração de ouro da revista francesa Cahiers du Cinéma: “O cinema é de fato e a priori a mais obscena das artes”. Vai ver por isso que até hoje recorremos a Chaplin quando queremos explicar o lado obscuro do capitalismo.


‘O Grande Ditador’

Autor: Charlie Chaplin

Gênero: Sátira política

Preço: R$ 0,99

Disponível no Now


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