• Júlia Aguiar

Só em setembro foram registrados 2.531 focos de incêndio em Goiás

Reportagem

Em apenas um ano as queimadas no estado de Goiás dobraram. Chapada dos Veadeiros teve focos de incêndios por 13 dias, devastação chegou a 36 mil hectares

Vila Moinho, na Chapada dos Veadeiros, sofreu com incêndios em setembro. Foto: Juliana Bento/JM


O cerrado é considerado o bioma de savânica mais biodiversa do mundo e uma de suas características é o clima semiárido, com longos períodos de deficiência hídrica. Porém, o bioma é considerado por ambientalistas como fundamental para a manutenção do equilíbrio hidrológico no país.


Isso ocorre, pois, as águas das chuvas penetram o solo e abastecem aquíferos e nascentes. O subsolo da região é rico em água e considerado uma “grande caixa d’água para todo o continente”, é o que afirma os estudos sobre o tema produzidos na Universidade Federal de Brasília (UnB).


“Há grandes reservatórios subterrâneos, dos quais se destaca parte do Aquífero Guarani. Mais ainda, o Cerrado fornece água para outras regiões brasileiras, pois nele nascem rios de diferentes bacias hidrográficas do país. A água é um importante e valioso recurso natural do Cerrado e, dentre suas valiosas funções ambientais, destacam-se a manutenção do suprimento e a qualidade de água, serviços de extrema importância econômica e social”, afirma o estudo “Cerrado Patrimônio dos Brasileiros” realizado pela UnB.


Apesar de sua extrema importância para os reservatórios naturais de água, a destruição do cerrado coloca em risco toda a dinâmica da manutenção aquífera do país. Segundo dados do MapBiomas, o cerrado perdeu quase 6 milhões de hectares de vegetação nativa entre 2010 e 2020: dos 13 estados ocupados pelo Cerrado, 11 tiveram perda de vegetação nativa no período, e quase toda essa área (98,8%) foi destinada à atividade agropecuária.


Outro dado que preocupa os ambientalistas é o aumento dos incêndios no bioma, que é naturalmente adaptado ao fogo. Entretanto, não é natural que esse fogo ocorra no período de seca. “Em 2017 o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros queimou quase inteiro, 4 anos depois temos um outro incêndio de grandes proporções”, relembra a ambientalista Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) em entrevista ao Jornal Metamorfose.



“Estamos interferindo diretamente no regime de fogo no cerrado, inserindo mais fogo onde deveria ter uma vez ou outra. Isso está causando um impacto no estabelecimento daquela vegetação, mesmo que ela seja adaptada e resistente ao fogo, se muito fogo ocorrer com muita frequência, as árvores eventualmente vão morrer. As espécies que vão se estabelecer são aquelas que resistem ao fogo, ou seja, aquela área vai virar um pasto”, explica Ane Alencar ao JM.


Em 2021, o Brasil enfrenta uma seca severa, o que contribui para a quantidade de queimadas no cerrado. Porém, há um aumento do uso do fogo de forma indiscriminada no país, o que pode ser observado no crescente índice de queimadas desde que o atual presidente da República assumiu o poder em 2018.


O fogo é um reflexo de três elementos básicos: condições climáticas, material combustível e fonte de ignição – que é quem coloca esse fogo. “Esse fogo é colocado por pessoas sem acesso à informação sobre as regras do manejo integrado, então esse fogo inflama e se espalha. É uma questão política, cultural e climática”, destaca Ane.


Incêndio nível 3


Desde o dia 10 de setembro, um incêndio nível 3 acomete a região da Chapada dos Veadeiros, segundo dados do Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade (ICMBio) cerca de 36 mil hectares já foram devastados até sexta-feira (24). Deste total, 18 mil hectares estão dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.


A Polícia Civil do estado de Goiás investiga o caso e afirma que parte dos incêndios são criminosos, 3 pessoas já são identificadas como responsáveis.


Em 2021, já foram detectados 5.144 focos de incêndio por satélite, superando a marca de 4.087 de 2020. Só em setembro deste ano foram registrados 2.531, em comparação com 1.825 do ano anterior, segundo os dados do Programa Queimadas, do Inpe.


“Já foram queimados 30% da vegetação, isso tá sendo uma tragédia, o fogo tá acabando com a chapada e todos os biomas. O apoio a monocultura é irreversível, o cerrado precisa de 10 anos pra se recuperar e não tem esse intervalo. Antigamente há cada quatro anos tinha um incêndio nível 3 e agora desde de 2018 está tendo incêndios nesse nível”, relata o brigadista voluntário Alex Gomes em entrevista ao Jornal Metamorfose.

Vila Moinho, na Chapada dos Veadeiros, sofreu com incêndios em setembro. Foto: Juliana Bento/JM


Dificuldades


Com temperatura chegando a 41°C e com a umidade do ar beirando os 8%, os brigadistas e bombeiros enfrentam dias com 16 horas de trabalho parar barrar o fogo intenso. “Às vezes apagamos o fogo e logo em seguida ele reacende, pela ventania e a alta temperatura, estamos vivendo dias de inferno”, relata Alex Gomes, ambientalista e brigadista voluntário da Vila de São Jorge.


Apesar das dificuldades para conter o fogo, Alex afirma que os incêndios não devem chegar nos povoados da região pois foi realizado o aceiro, técnica que utiliza o fogo para prevenir incêndios de avançarem para outras áreas.


Atualmente 180 pessoas trabalham na contenção do fogo na região da Chapada dos Veadeiros, entre bombeiros do Estado de Goiás e Distrito Federal, brigadistas voluntários, PREVFOGO (IBAMA) e ICMBio.


Coincidência


No último dia 2 de agosto, um projeto de lei que pretende reduzir em 70% a área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. O projeto de autoria do deputado federal Delegado Waldir (PSL - GO) visa sustar um decreto presidencial de 2017 assinado pelo então presidente da república, Michel Temer (MDB), que aumentou a área de preservação da unidade de 65 mil hectares para 240,6 mil hectares. Um dos pontos levantados pelo deputado é que o aumento da área de preservação ambiental prejudica a agricultura na região.


“A expansão da fronteira agrícola sobre áreas bem preservadas é muito preocupante, porque são áreas que atualmente estão sendo mais pressionadas. E existem outras áreas para agricultura, avançar sobre cerrado é muito perigoso, estamos falando de conversão de vegetação nativa, porque ela gera essa situação em que você retira completamente a vegetação e o potencial de recuperação do cerrado é muito lento”, explica a ambientalista Ane Alencar, do IPAM.


Segundo os dados do IAPM, em 36 anos perdemos cerca de 26 milhões de hectares de cerrado. Sendo 20% de toda cobertura de vegetação nativa.


Já para o ambientalista, ativista e brigadista voluntário da Vila de São Jorge, Alex Gomes, os incêndios sempre são criminosos. “No cerrado o incêndio natural é somente com raios, o que não acontece na época de seca. Para a população local o fogo é fruto de retaliação, porque com o projeto do delegado Waldir a reação dos moradores e dos ambientalistas foi de total repúdio”.


Outro lado


Segundo nota divulgada pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do estado de Goiás (Semad) o governo investiu mais de R$ 5 milhões na aquisição de equipamentos para prevenção e combate a incêndios florestais nas Unidades de Conservação (UCs) do Estado.


“Com esses valores a Semad adquiriu aparelhos como drones, queimadores florestais, sopradores, roçadeiras e equipamentos de segurança para brigadistas. Desde o ano de 2019 os recursos foram empregados ainda na aquisição de bens e serviços, contratação de maquinários, instrumentos, além de pessoa jurídica especializada em caráter temporário para combate a incêndios florestais”, explica a nota.


Além de recursos financeiros, a Semad deu andamento na elaboração do Plano Operativo de Prevenção e Combate a Incêndio por unidade de conservação, além de confecção de aceiros e manutenção de acessos (estradas vicinais) nos parques estaduais. Desde janeiro foram contabilizadas mais de 1.500 horas/máquina de aceiros em todas unidades de conservação do Estado, além de outras realizadas pela própria Semad.


Porém, apesar dos esforços, os focos de incêndio dobraram de 2020 para 2021.

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