Atriz da estética da revolução

November 5, 2019

Cinema & teatro

Sara Antunes estréia ‘Alma Clandestina’, a história trágica de Maria Auxiliadora Lara Barcelos, protagoniza ‘Deslembro’ e está no palco com ‘Guerrilheiras’

 

 

Graduada em Filosofia e formada em Arte Dramática, a ‘uspiana’ Sara Antunes protagoniza “Alma Clandestina”, que deve estrear em 2020, no Brasil- após apresentações em festivais. O filme conta a trágica história da guerrilheira urbana Maria Auxiliadora Lara Barcelos, ex–militante da  VAR-Palmares, presa, torturada e trocada pelo embaixador da Suíça no Brasil, Giovanny Enrich Bucher, em 16 de janeiro de 1971. Setenta presos políticos foram para o Chile. Sob Salvador Allende, deposto, em um golpe de Estado civil e militar, em 11 de setembro de 1973. A dissidente política exilou-se na Alemanha e suicidou-se. A artista circula, hoje, o Brasil, com a peça ‘Guerrilheiras’.

 

A revolução nas selvas do Araguaia, conflito organizado pelo PCdoB, de 1966 a 1975, com um saldo de mais de 70 mortos e desaparecidos. Pela violência da repressão da ditadura civil e militar instalada em 1964. Peça de teatro cult, rebelde, singular, sem o dirigismo cultural do realismo socialista. Inventiva, multifacetada, atua ainda no filme de Flávia Castro, a mesma diretora de ‘Diário de Uma Busca’, cujo título é ‘Deslembro’. Uma produção cinematográfica do balacobaco.

 

De derramar lágrimas e lágrimas pela face. Em outubro, ela estará na Série ‘Segunda Chamada’, da TV Globo. Sinal de vida inteligente na vênus platinada. É filha de Inácio Loyola Bueno, ex-padre, envolvido em revoltas operárias, exilado, e de Ângela Bicalho, ex-freira, psicóloga que trabalhou com Nise da Silveira, uma médica psiquiatra, antimanicomial, mulher além do seu tempo. Mãe de dois filhos e irmã de Pepe Bueno, artista, Sara Antunes anuncia a participação, em 2020, na Série ‘Todas as Mulheres do Mundo’.   

 

Leia a íntegra da entrevista:

 

Jornal Metamorfose: ‘Deslembro’, de Flávia Castro, tem um tom autobiográfico da diretora, não? Como o mesmo itinerário de exílio do seu pai: Brasil, Chile, França, anistia. Celso Castro, trotskista, presente no pimpolho Leon. Uma morte violenta. Como a de Eduardo. A análise possui fundamento? Como viu o seu papel no drama político?

 

Sara: Flávia Castro talvez respondesse melhor [risos], mas, já vi ela falando que durante a feitura do belíssimo documentário sobre o pai ‘Diário de Uma Busca’ surgiu a ideia de fazer ‘Deslembro’, então sim, vejo que há cruzamento de realidade e ficção mas, sobretudo porque Flávia Castro viveu o exílio criança e adolescente, voltou para o Brasil na Anistia. Há muita propriedade no sentimento do filme. Todo campo sensorial de reencontro com o Brasil é muito precioso, singular, jamais encontraremos em livros de história, mas, a história exata de Celso de Castro não é a mesma de Eduardo, do filme. Em ‘Deslembro’ faço Ana, que perde o companheiro para a ditadura, precisa criar uma filha, cria uma família na luta,  cheia de singularidades e carrega a marca do período. Com o silêncio necessário para continuar vivendo. A filha Joana que vai fazer sair essas palavras, como num rito tardio de luto e entendimento da própria história. O filme é bonito e já está disponível nas plataformas digitais.    

 

Jornal Metamorfose: Presa, submetida a torturas, trocada na turma dos 70, em 1971, militante da  VAR- Palmares, quem era a estudante de Medicina Maria Auxiliadora Lara Barcelos?

 

Sara: Uma mulher fundamental, curiosa, inquieta, inteligentíssima, apaixonada, corajosa e com uma sensibilidade aflorada. Veja: parece elogios, mas são características difíceis para uma mulher neste mundo misógino, sobretudo em plena ditadura, quando todos os monstros e toda a obscuridade que a sociedade alimenta estão legitimados e tem o aval para agir e se mostrar.    

Jornal Metamorfose: O que a levou ao suicídio, na Alemanha, sob seu exílio?

 

Sara: É complexo. Nunca vamos saber ao certo. O filme levanta os pontos. Aproximar-me  cada vez mais dela e do que passou me fez conhecer uma dor nova, imensa. Um peso que Dora precisou carregar por sua escolha, ela teve enfrentamento direto, ficou cara -a -cara com esse monstro verde-amarelo que citei. 

 

Jornal Metamorfose: Qual a sua leitura histórica e estética de  Guerrilheiras? Longe dos cânones do dirigismo cultural do Realismo Socialista e da arte engajada? Um sopro poético, dramatúrgico que dialoga com o cinema.

 

Sara: “Guerrilheiras ou Para a Terra Não Há Desaparecidos” é uma peça que me marcou profundamente. Já que aborda a história das mulheres que lutaram na Guerrilha do Araguaia. Mulheres que não puderam dar o testemunho da violência que sofreram, que entregaram muito jovens a vida na luta por um mundo mais justo e foram assassinadas pelo Estado Brasileiro. Os corpos não foram encontrados. Então trouxemos a perspectiva da Terra. A Terra sabe onde esses corpos estão e de algum ponto do nosso solo brasileiro elas ainda gritam para serem encontrados. Para serem ouvidos. Elas ainda gritam as  injustiças que as levaram a luta armada. Fizemos a peça antes do golpe contra Dilma Rousseff e tudo isso que estamos vivendo. Achávamos que era uma peça homenagem. O passado nos atropelou e hoje é atual, necessária e temos ouvido que é perigosa. A arte tem isso, antecipa momentos, afinal não era uma homenagem, eram elas que voltavam para continuar a luta, nos apoiar nesse momento tão difícil.  É uma perspectiva bonita de espíritos que ainda estão aqui nos ajudando. Tal como canta Mercedes Sosa no fim da peça. “Tantas vezes me mataram.  Tanta vezes eu morri. Mas agora estou aqui. Ressuscitando”.

 

 

 

Jornal Metamorfose: ‘Deslembro’, de Flávia Castro, tem um tom autobiográfico da diretora, não? Como o mesmo itinerário de exílio do seu pai: Brasil, Chile, França, anistia. Celso Castro, trotskista, presente no pimpolho Leon. Uma morte violenta. Como a de Eduardo. A análise possui fundamento? Como viu o seu papel no drama político?

 

Sara: Flávia Castro talvez respondesse melhor [risos], mas, já vi ela falando que durante a feitura do belíssimo documentário sobre o pai ‘Diário de Uma Busca’ surgiu a ideia de fazer ‘Deslembro’, então sim, vejo que há cruzamento de realidade e ficção mas, sobretudo porque Flávia Castro viveu o exílio criança e adolescente, voltou para o Brasil na Anistia. Há muita propriedade no sentimento do filme. Todo campo sensorial de reencontro com o Brasil é muito precioso, singular, jamais encontraremos em livros de história, mas, a história exata de Celso de Castro não é a mesma de Eduardo, do filme. Em ‘Deslembro’ faço Ana, que perde o companheiro para a ditadura, precisa criar uma filha, cria uma família na luta,  cheia de singularidades e carrega a marca do período. Com o silêncio necessário para continuar vivendo. A filha Joana que vai fazer sair essas palavras, como num rito tardio de luto e entendimento da própria história. O filme é bonito e já está disponível nas plataformas digitais.         

 

Jornal Metamorfose: Como é trabalhar com Flávia Castro?

 

Sara: Para mim foi um grande encontro da vida. Encontrar parceiros artísticos com afinidade é um presente. Eu admiro e respeito Flávia Castro tão profundamente... Nem sei dizer. Ela fez uma equipe de mulheres fantásticas e não perdeu nunca a escuta, o respeito. É uma artista sensível, delicada, ficamos amigas e quero muito poder trabalhar mais com ela nessa vida e com certeza acompanhar de perto toda sua criação.     

 

Jornal Metamorfose: O que é a produção de outubro da Tv Globo - Paulo Freire?

 

Sara: A série se chama ‘Segunda Chamada’,  escrita por duas mulheres Carla Faour e Julia Spadaccini, dirigida por Joana Jabace e se passa em uma escola que homenageia outra mulher EJA Carolina Maria de Jesus. Então, repare, estou com sorte, de estar tão bem acompanhada sempre ao lado de mulheres profundas e comprometidas. Tenho a  impressão que será importante por conta do alcance da  televisão, nesse momento de tanta  inversão de paradigmas falar sobre educação, enaltecer Paulo Freire e todo seu legado, reconhecer a importância dos professores é  importante e fundamental.  Além disso, a série vai tocar em assuntos polêmicos como a discussão de gênero, aborto, amamentação, preconceito. Cada problemática de um aluno vai ecoar em um capitulo. Eu faço Márcia que é uma mulher evangélica prestes a ser mãe. Tentei fazer com respeito para que justamente a gente consiga se aproximar e entender essa onda religiosa. Onda tão perigosa, mas, ao mesmo tempo tão atraente para grande parte da população. E mostrar a realidade da maternidade na periferia para a mulher que quer continuar os estudos. Estou curiosa!         

 

Jornal Metamorfose: Plano seus para 2019 e 2020?

 

Sara: Em 2020 vai estrear outra série na Globo que estou gravando agora chamada  ‘Todas as Mulheres do Mundo’ que homenageia a obra do meu grande amigo Domingos Oliveira. Então, esse é um trabalho também feito com muito coração. Poder estar perto dele novamente numa criação é um respiro neste ano. Em 2020 espero fazer as peças do repertório: Corpos Opacos, direção de Yara de Novaes; Leopoldina Independência e Morte, direção de Marcos Damigo. Um pouco de saúde à minha vida diante da toxidade atual do Brasil.

 

Jornal Metamorfose: Tempo Presente - A Era Jair Bolsonaro: o que dizer?

 

Sara: É a negação de tudo o que eu acredito, tudo que fui ensinada, tudo que espero em termos de postura no mundo para os meus filhos. É um período muito triste mas, eu li uma entrevista da minha amiga e colega Linn da Quebrada [ela faz a série comigo] quando questionada pelo fato de ser uma mulher ‘trans’ se a onda conservadora lhe causava medo, ela respondeu “Nós estamos ocupando espaços. Quem está assustada é uma classe conservadora, que se vê perdendo território. Eu também estaria se estivesse na pele deles”. Achei linda e esperançosa a inversão de perspectiva. Essa onda fascista que estamos vivendo é resposta  de um medo da classe conservadora, elitista e preconceituosa que não estava aguentando ver os passos mínimos sendo dados em direção a um mundo mais diverso, tolerante,  menos injusto e como sempre vimos na história, eles reagem com violência e ignorância extrema. Mas a onda vai e volta. Precisamos nos organizar cada qual na sua área e nos unirmos para virar a maré.  

 

Jornal Metamorfose: Qual é a singular  história de seu pai, da sua família e o mix de influências na sua carreira?

 

Sara: O meu pai, já falecido, era de 1926.  Inácio de Loyola Bueno foi 30 anos padre e exilado pela ditadura militar por se envolver na luta operária de Volta Redonda aonde atuava na Igreja Católica. Já a minha mãe Ângela Bicalho foi freira durante nove anos. Ela saiu para trabalhar com a médica psiquiatra revolucionária, além do seu tempo, Nise da Silveira, e exercer psicologia. Os dois se conheceram, ele como psicanalista, ela como psicóloga. Na volta dele do exílio.  Pessoas muito singulares. Eu tenho muito orgulho da história deles. Como precisaram sair da religião para exercer a vocação humanitária. Como tentaram dar pra mim e para o meu irmão Pepe Bueno, também artista, uma criação libertária. Eles sempre foram muito politizados. Política era um assunto cotidiano, importante. Em tudo que faço vejo a história deles. Sigo honrando e prolongando as suas escolhas. 

 

Jornal Metamorfose: Qual a sua história e referências na dramaturgia e no cinema?

 

Sara: Sou formada em Filosofia pela USP e também em arte dramática. Eu  tenho dois filhos. Venho trabalhando sobre o corpo da mulher em múltiplas perspectivas. Desde a minha primeira peça teatral, que escrevi conjuntamente, com 18 para 19 anos, chamada ‘Hysteria’. Uma trajetória artística de quase 20 anos. Com mais de 15 obras teatrais. Com temporadas no Brasil e fora também. Premiadas, 10 longas-metragens, curtas e trabalhos para a TV. Tenho muito orgulho de ser uma trabalhadora de Cultura do Brasil e fazer uma trajetória coerente, conseguir sobreviver e criar meus filhos sendo artista.  

 

 

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