• Marcus Vinícius Beck

‘Sei eu não sei, só sei que foi assim’

Cinema

Dirigido por Guel Arraes, longa “O Auto da Compadecida” é baseado em livro de Ariano Suassuna e chega aos 20 anos em meio às incertezas que tomam conta do cinema nacional

Ator Matheus Nachtergaele em cena do filme ‘O Auto da Compadecida’ - Foto: Reprodução


Um dos nomes mais importantes do teatro, junto com o anjo pornográfico Nelson Rodrigues, o dramaturgo e escritor paraibano Ariano Suassuna era apaixonado pelo universo do sertão nordestino. Após o pai ser assassinado por motivações políticas durante a chamada Revolução de 1930, Suassuna mudou-se com a família para a fazenda Taperoá (PB) e foi nela que passara sua infância e tivera contato com a cultura sertaneja: “um mundo de sol e de poeira”, referia-se ao lugar, em entrevistas. Daí para a literatura de cordel foi um pulo, a beleza da viola e o teatro de mamulengo – que se faziam presente em sua extensa produção literária – acalentavam o jovem.

Já de posse do canudo da Faculdade de Direito do Recife, Suassuna foi agraciado em 1950 com o Prêmio Martins Pena pela peça “Auto de João da Cruz”. Mas fora cinco anos depois, com “O Auto da Compadecida”, texto que viera a ser celebrado como clássico do teatro brasileiro, que o dramaturgo estourara. E, de imediato, despertara atenção da crítica: “Poeta por excelência, conjuga o local ao universal”. As impressões foram anotadas pelo escritor, tradutor e professor Gustavo Doria nas páginas de O Globo, em 4 de dezembro de 1956, à época o diário era relegado a segundo plano em meio à quantidade de jornais diários (coisa de nove, dez) que eram impressos no Rio de Janeiro.


Quase cinco décadas depois, o diretor Guel Arraes (responsável por pérolas no cinema e na TV, tipo “Lisbela e o Prisioneiro", de 2003, e “A Grande Família”, que permaneceu no ar entre 2001-2014) reuniu um elenco com nomes como Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Denise Fraga e Marco Nanini levando a história eternizada por Suassuna às telonas. Foi um sucesso gigantesco, até hoje um dos filmes campeões de bilheteria do cinema brasileiro. E tudo isso numa época em que tinha-se necessidade de a sétima arte produzida no País fazer as pazes com o público. Fez e ainda hoje – duas décadas depois – a comédia segue rendendo boas gargalhadas.


Para recapitular, eis uma contextualização histórica, final dos anos 1990, início dos anos 2000 (ano em que “O Auto da Compadecida” estreou no cinema) vivia-se anos de incerteza em relação à produção cinematográfica brasileira. Após o Plano Collor, quando o audiovisual estagnou-se no Brasil com obras aqui e ali sendo realizadas, houve a retomada com o longa “Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil”, filme dirigido por Carla Camurati e lançado em 1995. Depois, foram produzidas coisas boas, como “Lamarca”, de Sérgio Rezende e com o ator Paulo Betti como protagonista, além de “O Quê É Isso Companheiro”, cuja direção é assinada por Bruno Barreto.


Em comum? Os dois filmes tinham forte pegada política: um relembrava os últimos passos do guerrilheiro Carlos Lamarca em sua fuga da ditadura, enquanto o outro – baseado no livro de mesmo nome do jornalista Fernanda Gabeira – contava parte da história da luta armada no Brasil. Mas, mesmo com a volta da indústria cinematográfica, o riso – no cinema, é bom diferenciar – não era algo tão corriqueiro. E era preciso gargalhar. “O Auto da Compadecida”, portanto, cumpriu (e ainda cumpre, na verdade) a função de mostrar a cultura do sertão, aquela que fora eternizada na literatura e no cinema. João Grilo e Chicó, personagens de Suassuna, matam de rir. Ainda hoje.


Filosofia popular


“Sei eu não sei, só sei que foi assim”, diz o personagem Chicó (Selton Mello) sempre que finaliza uma história duvidosa no filme “O Auto da Compadecida”, dirigido por Guel Arraes e que completou ontem 20 anos. O longa, que mostra a busca por uma vida melhor dos amigos Chicó e João Grilo (Matheus Nachtergaele), diverte o público com uma sequência de situações complicadas e constrangedoras nas quais os amigos se metem no decorrer da fita. E a gargalhada rola solta com Bispo (Lima Duarte), Severino (Marco Nanini), Major Antônio Moraes (Paulo Goulart) e o Diabo (Luís Melo). A montagem final da produção nasceu como uma adaptação de uma minissérie de quatro capítulos realizada pela Globo, em 1999, também um sucesso de audiência.


No início da nova temporada do programa “O País do Cinema”, que estreou em julho e é comandado pela atriz Andreia Horta, no Canal Brasil, “O Auto da Compadecida” foi exibido e, na sequência, houve um debate com a apresentadora, Nachtergaele e Virgínia Cavendish, que vive a Rosinha no filme - responsável por desencadear acontecimentos conflituosos entre Chicó, Vicentão, Cabo Setenta (Aramis Trindade). O trio conversou sobre a importância do clássico de Suassuna para o cinema brasileiro e como foram os bastidores dele. O programa está disponível na plataforma Now, da Net, e no Canal Brasil Play, streaming da emissora.


Se o clássico de Suassuna foi sucesso nos palcos e na telona, muito deve-se à personalidade cativante do dramaturgo, um excelente orador. Certa vez, o escritor comentou que, mesmo desprovido dessa autonomia escolha, gostaria de ter vivido cem vidas. Nascido a 16 de julho de 1927 em Nossa Senhora das Neves, cidade hoje denominada de João Pessoa, Ariano Suassuna sofreu um AVC hemorrágico a 23 de julho de 2014, aos 87 anos. Sua trajetória, marcada pelo amor à arte e pela cultura do sertão, foi interrompida. Como ele dizia: “Arte pra mim é missão, vocação e festa”. Não é à toa que seguimos rindo das trapalhadas de Chicó e João Grilo.


Serviço

‘O Auto da Compadecida’


Direção: Guel Arraes

Gênero: Comédia

Duração: 1h44


Disponível nas plataformas digitais