• Júlia Aguiar

Sexo y Revolución

Cinema

Festival “É Tudo Verdade” traz filme argentino que narra a resistência LGBT anticapitalista na década de 1970

Foto: Arquivo Hasenberg-Quaretti - Facultad de Filosofía y Letras de la UBA.


“A democracia verdadeira e a liberdade baseadas na consciência e responsabilidade estão também condenadas a permanecer como uma ilusão, até que essa exigência seja satisfeita. Uma sujeição sem remédio às condições sociais caóticas continuará a caracterizar a existência humana. Prevalecerá a destruição da vida pela educação coerciva e pela guerra” – afirma o psicanalista austríaco Wilhelm Reich, no livro “A Função do Orgasmo” (1975).


Somos escravos dos sentidos. Portanto, para manter as pessoas na lógica sufocante da servidão é necessário controlar os impulsos sexuais, classificando o sexo somente como função reprodutiva. Tal comportamento apaga, propositalmente, a memória humana de que o sexo é a exploração corporal dos sentidos.


Já o patriarcado mantém papel fundamental na manutenção da subserviência humana, pois ao retirar o direito a liberdade sexual é necessário conduzir os estímulos corporais (que são comprovadamente naturais em qualquer corpo humano) para outro comportamento que não o próprio sexo. A lógica é realmente cruel, ao retirar tais estímulos do sexo, o patriarcado capitalista os realoca na produção de mais valia. Ou seja: o corpo é feito para o trabalho e não para o prazer.


Tais ideais são a base fundamental na construção conceitual das famílias cristãs contemporâneas. Por tal motivo, lésbicas, gays, transexuais e travestis, bissexuais e outras identidades de gênero e sexuais eram vistas como degenerativas pela sociedade argentina na década de 1960.


O documentário “Sexo y revolución”, dirigido por Ernesto Ardito, conta a história do movimento gay anticapitalista na Argentina antes, durante e após a ditadura. Um filme doloroso, confesso, pois a realidade é muito dura com a comunidade LGBTQIA+.


O longa-metragem conta com entrevistas potentes e sensíveis, já que os próprios ativistas da Frente de Liberación Homosexual (FLH) narram em primeira pessoa os horrores que sofreram durante a ditadura do general Jorge Rafael Videla (1976-1983). A triste realidade de nossos vizinhos é que a LGBTfobia já era extremamente violenta muito antes de ser institucionalizada.


O interessante desse filme é justamente narrar a história do movimento LGBT na Argentina pela perspectiva de personagens que acreditam não existir luta pela liberdade sem anticapitalismo, anti-imperialismo e anti-patriarcal.


Gostaria de frisar que qualquer semelhança não é mera coincidência. Na Argentina, muitos gays preferiam lutar pelo bem-estar social do que pela liberdade sexual, afinal, a própria esquerda argentina considerava a homossexualidade um desvio de conduta burguesa, um crime contra a revolução.


Enquanto isso, a famosa FLH soltava manifestos conscientes de que a revolução não poderia deixar de lado o fim da exploração contra a mulher, os gays e todos aqueles oprimidos pelo sistema patriarcal capitalista. Eles acreditavam na revolução, mas a própria revolução não os aceitava.


A situação era extremamente tensa, já que o Terrorismo de Estado instalado durante a ditadura argentina perseguia todo e qualquer tipo de pessoa que aparentasse ser LGBT. Exista um endosso social pela cultura do extermínio.


Segundo o pesquisador Jinking Sader, existiram pelo menos 364 campos de concentração e centros clandestinos de detenção e extermínio, os quais funcionavam em instalações públicas ou privadas, quartéis, unidades penitenciárias e até escolas, onde as pessoas eram mantidas sequestradas por razões políticas, em sua grande maioria sem qualquer relação com a luta armada.


O filme narra em detalhes as atrocidades que eram recorrentes à época, tais como lobotomia, internação em manicômios, terapia de choque e repulsa sexual, torturas por parte do estado, além de vários assassinatos. Porém, o diretor argentino Ernesto Ardito consolida uma narrativa somente com homens brancos gays.


Embora seja essencial o resgate da trajetória dos companheiros, há de se questionar aonde estavam os grupos de lésbicas, transexuais e travestis. Tal apagamento é também fruto do patriarcado. Porém, o documentário traz reflexões de extrema importância para as lutas atuais: o movimento LGBTQIA+ precisa se unir à luta anticapitalista. Não existe revolução sem liberdade sexual e de gênero.


Se a história de nossos vizinhos argentinos é tenebrosa, precisamos lembrar que o Brasil é atualmente o país que mais mata pessoas trans no mundo. Vivemos um genocídio e nós pessoas LGBTs precisamos nos unir em uma luta ampla e irrestrita pela liberdade dos povos.


“Sexo y revolución”


Onde: Festival É Tudo Verdade – mostra Foco Latino-Americano

Direção: Ernesto Ardito

Disponível até o dia 18 de abril

Link: "sexo y revolución"

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