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  • Júlia Aguiar

Sinuosidade fotográfica

Entrevista

Curta metragem “Ilha do Sol”, que compõe a 24º Mostra de Cinema de Tiradentes, ganha destaque pela fotografia visceral

Curta-metragem a “Ilha do Sol” está disponível na 24º Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Divulgação



O filósofo Vilém Flusser escreve em “Filosofia da Caixa-Preta”, que o poder da imagem é justamente fruto da possibilidade mágica de hipnotização do telespectador, “as imagens são resultado do esforço de se abstrair duas das quatro dimensões espácio-temporais, para que se conservem apenas as dimensões do plano”, escreve Flusser. É curioso perceber em obras cinematográficas o poder e a densidade comunicativa que se cria através da sensibilidade desse fazer cinema independente no contexto atual.


Na era da contrainformação, é como um suspiro se deixar atravessar por obras sinuosas, brasileiras, enraizadas na construção de suas próprias narrativas. O curta-metragem “Ilha do Sol”, dirigido por Lucas Parente, Rodrigo Lima e Walter Reis é uma surra de simbologias herméticas capturadas com o olhar de Pablo Hoffmann.


Disponível na 24º Mostra de Cinema de Tiradentes, o curta é fruto de um outro filme: “Calipso”. A performance de Walter Reis na ilha do sol, localizada na baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, foi gravada durante o processo do filme “Calipso” – que contava com a mesma equipe do curta – e como não entrou na montagem do longa, se tornou um filme próprio.


A performance visceral de Walter, gravada em contraluz pelo diretor de fotografia Pablo Hoffmann, pode ser descrita como uma quebra na linguagem fotográfica, usando do acaso a sensibilidade para captar uma história intensa e comovente. Em entrevista para o Jornal Metamorfose, Pablo conta que a ideia de “Calipso” era gravar um filme com somente o uso do sol como iluminação, realçando as sombras e texturas na imagem. “Para deixar as figuras mais escuras que a gente conseguisse, não usamos nenhum tipo de rebatedor ou outra luz, e a gente fez um mapa da ilha e algumas visitas antes de filmar, tiramos fotos dos pontos que achamos mais interessantes e nos planejamos para estar nesses lugares em contraluz”, relata ao JM.


Assim como “Calipso”, o curta “Ilha do Sol” busca ressaltar o mistério, as profundezas do abismo interno, o desconhecido. Com uma fotografia que abusa da metáfora do mar como palco e personagem do explorar o inimaginável, “durante as filmagens a gente tinha o mar como uma barreira fixa que impedia os personagens de sair da ilha, então ele sempre foi uma vasta imensidão que os prendia. E na própria ilha a gente lidava com as texturas daquelas pedras, do mar, do contraste com o sol”, explica Pablo.


Já a locação dos dois filmes tem uma história pra lá de simbólica tendo em vista o momento distópico que vivemos, algo que mesmo não sendo explícito, fica claro em “Ilha do Sol”. A ilha foi batizada com o nome que carrega o curta em 1940 pela artista Luz del Fuego, uma das vedetes mais importantes do Brasil. Nesse período ela se isolou na ilha e começou a expor os seus ideais existencialistas, naturistas, em defesa dos direitos da mulher e da liberdade de expressão, e em combate aos preconceitos sociais.


Sendo uma figura histórica na cidade do Rio de Janeiro, sua trajetória está de certa forma marcada nas pedras e texturas presentes em “Ilha do Sol”. Em um filme que explora o misticismo do delírio tatuado em uma cobra desenhada pelo Walter Reis na superfície de uma grande rocha, segundo Hoffmann: “Nossa abordagem era com planos fixos durante o filme, então acabamos fazendo a mesma ideia no curta. O pincel dele tinha sempre pouca tinta, então ele tinha que voltar no pote de tinta e fazer mais um pequeno traço e cada saída e volta dele eu apostava num dado enquadramento e deixava que o corpo de Walter fizesse as composições, com um pouco de caos dentro da preparação que a gente teve”.


Assim como a teoria filosófica da fotografia abraçada por Flusser, “Ilha do Sol” brinca com a profundidade do capturar fotográfico. A potência semiótica nas simbologias angariadas entre o corpo semi nu de Reis e a imensidão escura do mar que banha a bahia de Guanabara, os reflexos oportunos do sol em cada linha traçada ritualisticamente, é como se tudo fosse uma produção do acaso.


“A sorte, a chance, o acaso e o caos trouxeram coisas interessantes pra gente, que foram levadas na montagem do filme. Eu consegui estar de uma forma bem livre e apostar em um quadro que ia acontecer alguma coisa interessante, gerando uma sombra, uma postura de corpo, uma composição... e tudo teve um significado depois na montagem”, explica o diretor de fotografia Pablo Hoffmann em entrevista ao JM. Porém, há de se lembrar que o cinema é sobretudo, uma arte coletiva. O que transforma “Ilha do Sol” em um dos filmes mais belos da 24º Mostra de Cinema de Tiradentes é sua composição coltiva, construída de forma tão sutil pelo acaso do agora.


Para o diretor de fotografia, abraçar o caos do presente é se permitir estar aberto no momento de filmagem. Ao buscar saber o máximo daquele filme: a abordagem que o diretor tem sobre aquele tema, como ele olha aquele filme, aquela cena, se preparando com o aparato técnico que você tem, para que no momento do “vamo-vê” você possa ser levado pela magica do momento.


“Sabe aquela fagulha que vai encandecer e queimar e se extinguir em pequeno momento de tempo? Tudo isso para deixar o caos entrar, o que não se prepara, o inesperado acontecer ali. Fazer corpo com o presente, é uma forma de meditação. É o mistério da criação, ninguém sabe, vai acontecer da forma que aquele grupo conseguir evocar os santos e bater os tambores e fazer acontecer na frente da câmara. É o próprio filme que decide se vai acontecer ou não, ele vai pedindo as coisas, vai te contando como ele quer ser filmado”, finaliza Pablo.


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