• Marcus Vinícius Beck

Sobre café e cigarro

Fotografia

Obra de arte em forma de fotografia, projeto mostra encontros e desencontros da vida cotidiana

Fotos: Abigail Botelho



O instante em que o botão da máquina é apertado revela a riqueza da realidade. Bater uma fotografia, além de congelar a beleza do humano, é uma maneira de sentir. Uma potência verdadeiramente amorosa. Fazer o efêmero durar, com suas idiossincrasias captadas nos encontros e desencontros do cotidiano, é belo: ali se desnuda os aspectos passageiros da existência e, acima de tudo, se coletiviza o lado individual de cada um.


Foi o que fez a fotógrafa goiana Abigail Botelho ao homenagear o cineasta Jim Jarmusch com um ensaio analógico baseado em “Sobre Café e Cigarro” (2003), filme que satiriza personagens imersos numa ciranda hilária de situações triviais. “A arte tem um lugar incalculável na minha formação como pessoa. É um meio através do qual eu expresso tudo aquilo que não consigo falar ou escrever”, revela Abigail ao Jornal Metamorfose.


Então é hora de pedir licença ao glorioso (a) leitor (a) para me desviar um pouco da objetividade jornalística. As fotos, é lógico, me impressionaram por conta da textura poética num preto e branco charmoso e elegante, semelhante à estética adotada por Jarmusch na fita. E, bem, agora que revelei minha admiração pelo projeto, imagine você que fui intimado a participar dele. Óbvio que não recusei, cê acha?


Voltando ao filme, tudo parte de uma grande provocação. Jarmusch brinca simplesmente com nosso repertório conhecido como mundo. As histórias, ao todo o longa conta com 12 curtas, se sucedem sobre falhas da comunicação e ilusões. O cantor Tom Waits interpreta um Tom Waits que não é propriamente um Tom Waits – ele também é médico, no filme –, mas o esquete no qual bebe xícaras de café e fuma um cigarro com Iggy Pop é talvez a melhor situação corriqueira representada na obra.



“Acho “Sobre Cafés e Cigarros” de uma genialidade monstruosa, a maioria das pessoas que atuaram no filme representam elas mesmas, mas com diálogos e situações criadas pelo Jarmusch. Em uma das vinhetas, Iggy Pop é Iggy Pop e Tom Waits é Tom Waits, por exemplo. Isso me instigou muito: criar situações para pessoas reais e não personagens, criar encontros e desentendimentos, como no filme”, diz Abigail, ao ser interpelada pelo repórter sobre como foi o processo de criação do ensaio.


Sem falar na estética que o filme carrega e a qual a fotógrafa conseguiu brilhantemente transportar para seus retratos analógicos: a constância do preto e branco, do xadrez, pessoas postas à mesa. Ela conta que isso tudo lhe serviu de motivação e inspiração. E a partir disso, acabou selecionando, em sua cabeça, as pessoas e os lugares que achava adequado para a proposta de homenagear o mestre do cinema cult oitentista.


“O Jim, em alguma entrevista que ele concedeu, fala uma coisa muito honesta e mágica, para quem faz arte: “Não acredito em originalidade. Se você rouba um conceito de outro artista sem dar a ele nenhum tipo de crédito, você é um idiota, tudo bem, mas se alguém primeiro gera algo que te move ou inspira, acho válido se apropriar da ideia. O roubo gera variações e as variações são o motor fundamental da criatividade”, reflete.


E isso, ela continua, cumpre um papel libertador: “não correr atrás da originalidade e ser frequentemente frustrado. Por que não fazer arte em cima do que você tem como referência? Roubar ideias, conceitos e dar uma outra roupagem. Foi isso o que quis fazer: homenagear quem me inspira através do meu olhar, da minha posição no mundo. E isso significa homenagear com as pessoas e lugares que inspiram meu cotidiano: meus amigos, pessoas queridas e lugares que gosto.”



Em uma publicação no Instagram (@poemascombrocoli) em que divulga o ensaio, Abigail escreve que a obra de Jarmusch foi uma companheira em dias de solidão. “Falo da solidão da vida mesmo, somos solitários e nem sempre isso deve carregar uma conotação tão ruim. Todo mundo precisa passar por momentos de solidão, justamente para fazer suas próprias conexões: com você mesmo ou outros mundos (filmes, músicas, leituras, fotografias)”.


Ela conta ainda que Jarmusch foi uma conexão que estabeleceu em meio à solidão. “Por isso a obra dele foi uma grande companheira. “Eu já tinha tido um contato breve com ele através de “Estranhos no Paraíso”, e foi amor à primeira vista. Eu sabia que dedicaria algum momento da minha vida para assistir a obra completa”, afirma. Quando um amigo lhe perguntou se já tinha visto “Paterson”, Abigail se apaixonou. “Parecia ser o momento exato para uma imersão no cinema de Jarmusch.”


“Acho que não tem outra palavra para descrever esse momento além de “emocionante”. Foi emocionante, mexia comigo, me instigava, me divertia. É quase como uma revelação, rs, parecia que a gente estava conversando e se entendendo como ninguém. “The one and only Jim Jarmusch”’, conclui.



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