• Metamorfose

Somos todos sós

Botequim Literário


Compositor Aldir Blanc morreu em decorrência de coronavírus no início de maio - Foto: Agência O Globo/ Reprodução


Marcus Vinícius Beck


A tristeza, como cantou Tom Jobim e anotou Vinícius de Moraes, não tem fim. Não tem, não tem, especialmente no País da morte anunciada. Com a matemática da cova semelhante àquelas que barbarizaram no século passado, acostumamo-nos a ouvir o lead da moléstia lido pelo âncora do plim-plim no horário nobre. A tristeza não tem fim.


É, meu caro poetinha, primeiro a gente ouviu o molambo que se faz presidente dizer que o desastre anunciado não passava de uma gripezinha – assim mesmo, no diminutivo, negócio mais desrespeitoso. Depois, como se desgraça pouca fosse bobagem, as estatísticas foram forjadas e o ministro da saúde, quer dizer, o milico que ocupa o posto, passou a esquivar-se de quaisquer questionamentos sobre sua atuação à frente da pasta. A tristeza não tem fim.


Ainda teve perseguições deflagradas pelo sujeitinho que se diz ministro da Justiça (cujo nome, vou logo avisando, recuso-me a escrever) aos servidores antifas, paranóias ecoadas pelo charlatão terraplanista da Virgínia e retrocessos ruminados pelo porta-voz da cloroquina, o tal jornalista da Record Gourmet, vulgo CNN... A tristeza não tem fim.


Sabe-se lá por que, mas o tal Alexandre Garcia (que horror ter de redigir o nome de sujeito tão cafona, cuja cafonice extrapola o bom-senso, se é que ele existe para estes casos) disse que Bolsonaro é a comprovação científica de que o fármaco em questão é um aliado no combate ao coronavírus. Seria engraçado se não fosse trágico. A tristeza não tem fim.


100 mil vítimas, 100 mil histórias, 100 mil marias e clarices que estão derramando as lágrimas da Covid-19. A tristeza não tem fim.


100 mil vidas ceifadas que precisam ser debitadas na conta do ex-capitão expelido do quartel por terrorismo com o acréscimo de, ao deparar-se com o desastre iminente, achar por bem tocar o governo sem ministro da saúde. Sem ministro da saúde! A tristeza não tem fim.


Ah, xará Vinícius, preciso ampliar teu verso para dar nome aos bois: bando de seres decrépitos, monstros da escuridão política, saudosos da velhacaria gestada nos calabouços da tortura durante os anos de chumbo e educada numa redemocratização mandrake. A tristeza não tem fim.


Somente os vermes – para citar uma expressão consagrada brilhantemente pelo cronista Antônio Prata na Folha de São Paulo – definem a estultice teleguiada nas redes (anti) sociais das autoridades de Brasília. A tristeza não tem fim.


Haja cerimônias sem adeus, com choro distante entalado na garganta, velas queimando todas as horas. Resta-nos chorarmos sozinhos, de preferência com uma dose caubói daquele uísque vagaba, a morte de Sérgio Sant´Anna (poxa, ficar sem nosso melhor contista em plena forma literária, que catástrofe, que desastre, que bosta!). A tristeza não tem fim.


Quando morreu Aldir Blanc, confesso, abri a goela e senti a lamúria de sua partida (porra, que injustiça levar nosso principal letrista da música popular, nosso cronista da boemia, nosso poeta da vila, nosso mestre do cotidiano). Que número o cara seria nessas 100 mil mortes? Primeiro? Segundo? Terceiro? Décimo? Sobrou-nos a trilha do lirismo boêmio que ele deixou: “Olho as luas gêmeas dos faróis/ E assobio, somos todos sós”. A tristeza não tem fim.


E o punk da dramaturgia da transgressão, Antonio Bivar, qual seria a sua colocação na infame lista das 100 mil mortes? Ninguém sabe o número de nenhum óbito nesta conta. Tamanha desgraça humanitária deveria, se fôssemos um País compromissado com a dignidade, ser caso de impeachement. Mais: Bolsonaro, se tivesse um pingo de bom-senso, sairia pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, porque a da História já está reservada a ele e seus filhos. A tristeza não tem mais fim.


Nunca se viu tanta cova, tanta gente morta, tantos sonhos indo embora. E em meio a esse cenário da mortandade coletiva, eis que a bola segue rolando, sem torcida, sem emoção, sem alegria, mas com cartolas peitando, em suas habituais bravatas, a periculosidade do vírus. É um 7 a 1 estrepitoso, sonoro, furioso; um 7 a 1 atrás do outro. Por isso, digo-vos: A tristeza não tem fim.