• Lays Vieira

Subvertendo o preconceito linguístico

Atualizado: Jul 2

Sede de Arte

Perpetuado ao longo do tempo e do cotidiano, o preconceito linguístico do brasileiro está intimamente conectado com aspectos sociais e político


Capa do livro de Marcos Bagno "Preconceito Linguístico" - divulgação


Recentemente ouvi de uma colega que “goiano fala muito errado né?!”. No contexto em que a conversa estava ocorrendo, sei que ela não falou com a intenção de ofender, apenas ressaltou algo que lhe chamou a atenção ao se mudar para a capital goianiense. Entretanto, é sabido que somos uma sociedade recortada por diversos preconceitos velados e naturalizados.


Assim, a frase dita tão corriqueiramente me fez lembrar de um livro que me foi indicado certa vez em um bate papo no twitter: Preconceito Linguístico: o que é, como se faz?, do escritor, tradutor, linguista e professor da Universidade de Brasília, Marcos Bagno. E aqui, duvido que o leitor não irá se lembrar do nada querido ex-presidente golpista, Michel Temer.


Partindo de Aristóteles, o primeiro ponto chave que Bagno nos traz é que tratar da língua é tratar de um tema político. A língua não é uma coisa morta, é essencial se atentar as pessoas vivas que a falam. É muito comum certa confusão entre língua e gramática normativa.


É preciso separar essas duas coisas. Como o próprio autor enfatiza: uma receita de bolo, não é um bolo. A gramática não é a língua. Está não é estática ao tempo e a primeira reflete apenas a parcela mais visível. Tem valor, mas é parcial. A língua se renova incessantemente, a gramática normativa envelhece e renova mais lentamente.


Entretanto, aponta-se no livro, há uma aplicação autoritária, intolerante e repressiva que domina a ideologia geradora do preconceito linguístico. A forma de se falar das pessoas mais simples, humildes, muitas até analfabetas, não é “errada”. Esse tipo de intolerância, muitas vezes fruto de uma visão de mundo estreita, influenciada por certos mitos e superstições, têm como objetivo perpetuar os mecanismos de exclusão social tão estruturais no Brasil.


Bagno inicia o livro apresentando justamente oito mitos linguísticos do brasileiro, que ao passar por uma analise mais rigorosa não se sustentam. Segundo Bagno: “o preconceito linguístico fica bastante claro numa série de afirmações que já fazem parte da imagem (negativa) que o brasileiro tem de si mesmo e da língua falada por aqui. Outras afirmações são até bem-intencionadas, mas mesmo assim compõem uma espécie de ‘preconceito positivo’, que também se afasta da realidade”.


Esses tipos de mitos são transmitidos na sociedade em maior ou menor grau, mas em um círculo vicioso. Esse último, se dá com base no que o autor chama de “Santíssima Trindade” do preconceito linguístico: gramática tradicional, os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos.


De acordo com o professor, o círculo se forma da seguinte maneira: “a gramática tradicional inspira a prática de ensino, que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujos autores — fechando o círculo — recorrem à gramática tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua”. Mas, obvio, esse ciclo vem passando por uma reflexão crítica e melhoras, além da presença de especificidades regionais.


Porém, o que é preciso sempre manter em mente é que, apesar dos esforços, os preconceitos impregnam-se na mentalidade das pessoas e as atitudes preconceituosas podem se tornar parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo. É necessário um trabalho lento, contínuo e profundo de conscientização.


E mais, Bagno chama a atenção em seu livro para a existência de um quarto elemento nesse ciclo vicioso: o que ele chamou de “comandos paragramaticais”. Ligado a um arsenal de livros, manuais de redação de empresas jornalísticas, programas de rádio e de televisão e outras ferramentas, também ligadas a informática, que muitas vezes perpetuam os mitos e o preconceito linguístico.

Um exemplo presente na obra: “O mais respeitado e renomado propagador do preconceito linguístico por meio de comandos paragramaticais no Brasil foi, durante longas décadas, o professor Napoleão Mendes de Almeida, até falecer no começo de 1998, aos 87 anos. [...]Para Napoleão Mendes de Almeida, a literatura brasileira morreu em 1908, junto com Machado de Assis. Toda a vasta produção do Modernismo e dos períodos seguintes é merecedora de seu mais profundo desprezo”.


Então, como poderemos romper o círculo vicioso do preconceito linguístico? É isso que Bagno tenta propor no capitulo três do livro, abordando a restrição de acesso a norma culta no Brasil, privilégios, analfabetismo, aspectos históricos e culturais, tradição e conservadorismo entorno da “norma culta” e etc.


Precisamos de uma mudança de atitude, de mudanças no ensinar, reavaliar o que é “erro”. O que não significa, como o autor mostra, que vale tudo na língua. O livro de Bagno é bom ótimo pontapé inicial para tais mudanças.


Dados do livro:

Editora: Loyola (1ª edição, 1999; 55ª edição, 2013)

Páginas: 136

Preço médio: R$ 27,00



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