• Lays Vieira

Sucateamento e novas contaminações

Educação

Volta as aulas presenciais em várias localidades do país escancara falta de investimento na educação, desvalorização de professores e traz riscos reais de um novo boom no número de infectados

Aulas presenciais podem voltar em todo país ainda em fevereiro. Foto: Amanda Perobelli/Reuters/Reprodução


No início dessa semana, um fio no Twitter viralizou nas redes. Nele a professora da rede municipal de São Paulo, Lígia Freire relata os desígnios pós reunião de planejamento da volta as aulas em formato presencial no Estado, previsto para o próximo dia 15. O primeiro ponto é que muitos dos pais e responsáveis ainda nem responderam à um questionário sobre o assunto, e os que responderam, quase metade preferem a manutenção das aulas remotas durante a pandemia.


Outra questão que Lígia levanta é que muitos dos pontos dos protocolos de segurança a serem adotados estão destoantes frente a disponibilidade de profissionais da área da saúde para assistir a esses profissionais da educação (caso que se repete em diversas localidades do país, vide várias cidades com quase lotação máxima dos leitos para internação de pacientes com Covid-19). Um terceiro ponto importantíssimo levantado pela professora, e que acomete toda a educação pública brasileira, são as questões estruturais desses locais e a disponibilidade de funcionários, ou de contratar novos, para efetuar a limpeza, por exemplo. Em um Brasil onde o governo Bolsonaro corta verba da Saúde e da Educação cada vez mais, será que essas escolas conseguirão ter espaços adequados para receber os alunos com segurança?


No caso da escola onde Lígia leciona as salas são gradeadas e vedadas (para evitar novos roubos de patrimônio). Sem previsão de alteração na estrutura física do prédio, a solução dos funcionários é quebrar os vidros para o ar poder circular. Lembrando que o número de pessoal circulando diariamente nesses espações é enorme. São centenas de pessoas, literalmente.


E não para por aí, pois é muito problemático se analisarmos o problema apenas pelo lado dos alunos e dos pais. Sim, a escola é um importante lugar de socialização (e o afastamento da escola também é fator de peso nos vários problemas de saúde mental que atingiu milhares de jovens na pandemia – e voltar as aulas não vão resolve-los por si só), aprendizagem, para muitos é o lugar de refeições balanceadas, lugar onde se pode deixar os filhos de forma segura enquanto trabalha, etc. Por outro lado também, temos professores e funcionários acumulando cargos e funções (já que, por exemplo, o Brasil é uma vergonha em termos de valorização dos seus professores), muitos destes também são pais e com os novos horários decorrentes dos protocolos muitos não serão compatíveis com os horários de trabalho desses pais.


E aquelas escolas que conseguiram adquirir material para as aulas online, como tablets para os alunos, também necessitam pensar em capacitação, livros digitais e etc. Em 2020 a transição forçada para o online foi dura, mas mesmo depois dessa experiência, questiona-se até que ponto os poderes municipais, estaduais e federais investiram e planejaram esses aspectos. Ainda mais se pensamos na complexidade e diversidade dos contextos escolares no Brasil.


Na rede privada, o contexto é outro. Na grande maioria, os estudantes têm acesso a internet e equipamentos. Mas, a volta as aulas também vem acontecendo, já que muito desse debate de “volta” e “não volta” acabou conformando uma polarização entre política sanitária e negacionismo em muitos lugares, tanto por pessoas comuns como por autoridades, na rede privada e também pública (com suas devidas proporções).


Mas, a realidade também vem batendo a parta nesses espaços de maiores privilégios: em reportagem da TV Cultura, no site Uol no último dia 2, duas escolas privadas de Campinas (o Instituto Educacional Jaime Kratz e o Colégio Farroupilha), suspenderam as aulas presenciais devido casos confirmados de Covid-19 entre alunos e professores.


Goiás


Em Goiás, o contexto segue parecido. Na rede estadual as aulas voltaram de forma ainda online em 19 de janeiro e presencialmente no dia 25. Inicialmente o retorno segue o modelo híbrido, que permite até 30% de estudantes nas escolas. Segundo a Secretária de Educação, às aulas presenciais são para alunos da 3ª série do ensino médio, do 9º ano e daqueles estudantes que não tiveram acesso às redes sociais ao longo de 2020.


Segundo Andréa Leandro, professora da rede estadual, não houve pressão para a volta, mas em nenhum momento os professores foram questionados sobre o retorno presencial, “a decisão foi tomada única e exclusivamente por órgão competentes”, relata Andréa em entrevista ao JM. Medidas de segurança tem viabilidade de cumprimento, o problema, segundo ela é a exposição, porque nem todos têm preocupação com a doença, mesmo com tantas evidencias. “Acredito que não seria a hora de voltar de forma presencial, pois nas redes públicas de educação não possuem condições de um atendimento de excelência. Incluo também o atendimento hibrido”.


Por fim, a professora destaca que a saúde mental de várias pessoas, crianças, jovens e adultos, foi afetada, estão mais ansiosas e estressadas, comprometendo até mesmo seu sistema imunológico, “frente a uma pandemia e/ou isolamento social, sentimento de impotência e desesperança e humor deprimido podem ser frequentes”, afirma Andréa.


Já no âmbito municipal, as aulas voltaram em 21 de janeiro de forma online e segundo a Secretaria Municipal de Educação (SME) não há previsão para o retorno do modelo presencial, por enquanto. Lembrando que os leitos para internação na capital goiana estão em quase totalmente lotados, o que a alguns dias gerou até decreto de Lei Seca para bares e restaurantes, como acontece na capital paulista.


Outros Estados, como a Bahia, seguem pelo mesmo fluxo. No último dia 2 de fevereiro, o governador Rui Costa (PT) afirmou que as aulas irão voltar mesmo que a maioria da população ainda não testeja vacinada. O retorno das atividades está previsto para o dia 5 desse mês, após reunião com a União dos Municípios da Bahia (UPB), onde será apresentado um estudo feito pela Secretaria de Saúde do Estado e discutidos os parâmetros para a volta. Uma das justificativas dada pelo governador em entrevista foi que cerca de 30% dos estudantes são de zonas rurais e sem acesso à internet, sendo assim vital a volta ao modelo presencial.


Mas, para além das justificativas e de uma polarização entre política sanitária e negacionismo, os pais divididos e preocupados, entre todos: cidadão comum, pais, responsáveis e órgão públicos é a escancarada necessidade de lutar e exigir - até por ser um direito presente na Constituição, no Estatuto da Criança e do Adolescente, etc - uma educação pública de qualidade e justa, que combata desigualdades, valorize seus profissionais, priorize uma gestão democrática, combata preconceitos, gere reflexão crítica e permita as crianças e jovens refletir sobre seu papel e suas ações, especialmente em um momento como este em que o individual interfere tanto no coletivo.



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