• Marcus Vinícius Beck

Tête-à-tête com o poeta

Entrevista

IkaRo MaxX, idealizador da editora Provokeativa, se prepara para lançar três livros concebidos no confinamento pandêmico; em conversa-entrevista, ele analisa os rumos da nossa civilização

Ikaro em frente aos muros solitários do antigo Ministério da Cultura, no centro do Rio de Janeiro. Os pixos nos lembram do #OcupaMinC, ao lado temos a também abandonada da Ancine. Foto: J.Lee – meados de 2020.


Conheci o poeta IkaRo MaxX, 36, em algum dia do ano pandêmico de 2020. Lembro-me que ele estava com uma trupe, da qual também fazia parte minha amiga e fundadora do JM, Júlia Aguiar, e se preparava para ir à Chapada dos Veadeiros: era algum tipo de viagem destinada a “bruxas, fadas, magos e sábios místicos” imunes à decadência do Ocidente e mais livre que os “neuróticos das cidades”’ – como escreveu o próprio IkaRo no ensaio “O Peso Esmagador da Pandemia”, publicado neste jornal.


Na ocasião, batemos um papo e ele me entregou as obras “Full Foda-se” e “Uive Quando se Sentir Eterno”, ambas de sua autoria. Mas, enquanto divagávamos sobre a importância de poetas que têm uma visão torta da vida e não se curvam diante da hora dos assassinos, tivemos de lidar com a indesejada visita de policiais. A presença deles, é importante registrar, não era exatamente o que procurávamos naquela noite.


Tudo bem, ok, vamos lidar com isso sem problemas, com maturidade e bom-senso.


Quer dizer, antes de a normalidade se restabelecer foi preciso que as mulheres da trupe tomassem as rédeas da situação. O que aconteceu, obrigado. Graças a elas, sem dúvida, eu estou escrevendo estas palavras que se pretendem ser uma subversão jornalística – no sentido mais exato do termo, de romper barreiras e se livrar da camisa de força de um jornalismo broxante (sim, a língua portuguesa aceita nosso fracasso ser redigido tanto com 'x' quanto por 'ch') e preocupado em agradar gente estúpida, ôôôôôôôô.


Com a patrulha da moral fora de alcance e a instituição detentora do monopólio da violência também, confabulamos - eu, IkaRo e Júlia - sobre a necessidade de criarmos uma guerrilha cultural, mas no dia seguinte retornei aos meus compromissos laborais: a vida de operário gutemberguiano exige que sigamos horários, cumpramos prazos e coloquemos os pontos e vírgulas na civilização, como alertara o escritor Henry Miller em "Plexus", segundo volume da trilogia "A Crucificação Encarnada". Não sem antes, claro, prometer a mim mesmo que devoraria as obras que ganhei.


Permaneci no meu cubículo pandêmico os próximos meses até que, munido da fortuna adquirida no ofício jornalístico, decidi dar um pulo no Rio de Janeiro. IkaRo estaria por lá também naqueles dias, de setembro do ano passado, pra ser mais preciso, e poderíamos aprofundar as ideias que começamos a trocar em Goiânia.


Mas nunca aquela entrevista-conversa em profundidade sairia do papel.


Óbvio, havia o consentimento de ambas as partes sobre a importância de realizá-la, estabelecer um diálogo honesto, tête-a-tête, como mandam os preceitos da parafernália verbal a qual fazia O Pasquim durante os anos de chumbo da ditadura nas mesas dos botecos cariocas. Para ser mais honesto, queríamos entrar na alma de um jornalismo que se entendia respirando por aparelhos e, portanto, esquecido pelos escribas de aluguel e seus manuais de Redação tão caducos quanto às teorias do "sinistro" Paulo Guedes.


Divagações jornalísticas à parte, agora IkaRo se prepara para lançar as obras “Lóki-Down”, “68 Teses Provokeativas a Favor da Arte-Vida & Contra Formas & Juízos Fascistas, Conservadores & Falsos Moralistas” e “InacabadaMúsica”. As três pela editora Provokeativa, que fundara com o poeta Roger Tieri.


Confira, a seguir, a íntegra do bate-papo. Na conversa, falamos sobre poesia, microfascismo, degradação dos valores civilizacionais em meio à pandemia e o perigo que flanar pela rua representa num tempo em que as pestes (sanitária e política) povoam a nossa vida.


Jornal Metamorfose - A pandemia nos sufoca numa gravata de angústia, solidão e desespero. Em “Lóki-Down”, seu mais novo livro, há de um certo modo um diálogo com o ensaio publicado no El Pais pelo filósofo Byung-Chul Han sobre a vida rodeada por quatro paredes. Qual é o sentido da ideia de subversão da linguagem proposta pela poesia nestes tempos? IkaRo MaxX - Vivemos em tempos em que nos vemos sumariamente aprisionados e trancafiados de forma involuntária. E por tempo indeterminado: ao menos aqui no Brasil, o que se vê no mundo afora é que a vacinação e os lockdowns feitos enquanto a coisa não era tão grave quanto é agora resultaram em algo. O mais assustador e angustiante é que do lado de fora não prolifera apenas o vírus em estado alarmante de pandemia - com suas variantes, cepas virais e tudo - mas, também os horripilantes modos de extermínio do fascismo. Então, é uma espécie de dupla violência - ou dupla tragédia, cada qual com suas complexas camadas - que nos assola, nos ameaça no próprio cerne de nossa existência. Essa confusão não é meramente exterior, mas também se desloca com gravidade e se infiltra em nosso espaço subjetivo nos proporcionando uma quebra de energia, uma baixa de potência, fadiga, excesso de cansaço, o contínuo sentimento de inadaptação, desespero e desesperança - ainda mais fortemente estimulada pelas performances exigidas pela civilização capitalista em seu modo de sacrifícios econômicos e manutenção de códigos, imagem e exploração. Estamos massacrados e sobrevivendo porcamente, mas nos é exigido cada vez mais uma apresentação impecável, uma "saúde mental" impenetrável - absolutamente indiferente ao caos global como se fosse apenas uma "bad vibe" - e uma entrega absoluta para nossas tarefas "resultarem em algo", ou seja, em lucro e ostentação. Ou seja, estamos sendo imolados por dentro e por fora, fatiados e atirados para a glória exuberante dos algoritmos no circo das novas mídias. O Byung-Chul Han é um desses caras - que inclusive não descobri há tanto tempo assim - que tem feito esse interessante debate e que, você o percebeu bem, influenciou de certo modo a poética e concepção presentes em Lóki-Down. No entanto, todas as terríveis questões comentadas acima também fazem parte do turbilhão que me fez "desesperar" esse poema fragmentado - ou esses fractais que buscam explorar a potência sufocada e asfixiada pelo desarranjo orquestrado destes novos modos de submissão e sujeição pelo qual atravessemos. Por isso que a poesia ainda resguarda, em sua crisálida de descontinuidade com o ritmo exasperante do mundo e das coisas, a potência da irrupção subversiva, uma espécie de resgate subjetivo do naufrágio coletivo e global, da demolição e da tortura que nos está sendo imposta por todos os lados... e que também o neoliberalismo nos faz internalizar como "culpa" nossa - quase como uma cria da Igreja, a inventora dessa internalização e inscrição interna de um código arbitrário que nos é passado como "atemporal", "divino", etc -, por nosso "mal desempenho" nas funções diárias exigidas pela sobrevivência escravocrata deste capitalismo cada vez mais digitalizado e difuso nos aplicativos, escolhas e engodos que esse sistema cria.

JM - Na obra “68 Teses Provokeativas a Favor da Arte-Vida & Contra Formas & Juízos Fascistas, Conservadores & Falsos Moralistas”, sentimos o sopro libertário no aforismo de número 26. Você diz: “O motor mais fundamental da vida é o tesão: em favor da suruba – simbólica, metafórica, estética ou concreta – contra a monotonia temática & os clichês do romantismo aprisionador, cafona & mentecapto”. Com o enclausuramento pandêmico em voga, qual é o lugar da suruba no mundo?


IkaRo - Sabe, essa é uma pergunta que eu tinha me feito há uns dias atrás, cara. Porque, olha, se tem uma coisa de que tenho sentido uma falta imensa - além da convivência saudável com as pessoas, principalmente as mais queridas, os passeios e etc - é de uma boa e saudável suruba! Esses dias me peguei relendo algumas obras, inclusive essa que você comenta, e isso tudo foi um tipo de gatilho pra mim. Por isso acabei escrevendo um artigo bastante confessional em que faço esse tipo de reflexão - sobre pandemia, solidão e afetos, suas vulnerabilidades e perigos.

“A pandemia - toda essa coisa da rápida e potencialmente mortífera contaminação, principalmente a partir das variantes que tem acometido pessoas jovens e etc - nos colocou em uma posição desconfortável e bastante fragilizada em termos de contatos humanos. Ela tem nos isolado e afastado uns dos outros cada vez mais”

A pandemia - toda essa coisa da rápida e potencialmente mortífera contaminação, principalmente a partir das variantes que tem acometido pessoas jovens e etc - nos colocou em uma posição desconfortável e bastante fragilizada em termos de contatos humanos. Ela tem nos isolado e afastado uns dos outros cada vez mais. Para quem sempre esteve um tanto habituado a se relacionar de forma mais livre e desencanada - como eu e, imagino, você - a coisa toda veio como uma paulada, uma cisão completa entre nossas vontades, nossos desejos e o deserto de nossas reais possibilidades. Afinal, todo mundo está com medo (e com muita razão, claro) e ninguém - ao menos alguém são que seja - quer se "arriscar" a se contaminar. Porque a lógica tem algo simples e certeira: quem é capaz de se arriscar aqui em nome de uma inocente trepadinha, também pode potencialmente se arriscar ali e acolá - sabe-se lá. É uma coisa que demanda sinceridade e transparência entre os envolvidos. E quem é que quer entrar numa cadeia de transmissão da morte, principalmente quando muitas vezes os afetados não somos nós mesmos, mas nossos parentes, amigos e pessoas queridas? É claro... há quem esteja se arriscando (não sejamos hipócritas, né), até porque é impossível colocar um "controle" e arreio sobre todo mundo ou impor o que quer que seja. É, no fundo, uma questão de consciência. Vejo que a pandemia inclusive tem estimulado muito mais, além do autocuidado e uma intensa convivência com a própria solidão (afetiva, social e tudo), um certo retorno a formas mais "seguras" de relacionamento como a monogamia (o que acho polêmico, mas tenho visto acontecer em alguns casos - casais se formando e até gente engravidando nessa pandemia!). De toda forma é uma pena e uma incerteza. Talvez - bem, há essa possibilidade, né - as pessoas "retornem" após esse mal todo com uma fúria e uma libido monstruosas. Totalmente fora do normal. Aquilo tudo que foi obrigado a ser reprimido em nome da saúde coletiva. Aquela "vontade de fudê" incontornável, sabe? (O meu pau vive duro nessa pandemia - é incrível, bicho.) E talvez as orgias e surubas se tornem muito mais frequentes. Talvez até role agendamentos de suruba: na segunda com x, y e z; na terça, com a, b, c e j; na quinta... (Risos) Ou, talvez não. Talvez a lição internalizada na ressaca desta pandemia e do maldito isolamento forçado seja muito mais um cuidado conosco e com quem nos relacionamos. O que, é claro, é bastante positivo. E também essa "suruba" de que falo no livro não é apenas sexual ou de trocas libidinosas (embora também o seja, é claro - Risos), mas um conjunto de jogos e agenciamentos criativos em que trocamos radicalmente com outras subjetividades... e não envolve sexo necessariamente ou como foco principal. Mas, é claro, você já sabe disso. (Risos)


Poeta em Santa Teresa, Rio de Janeiro, outubro de 2020. Foto: J.Lee


JM - Em 19 de abril, você publicou um emocionante e hilariante ensaio sobre o poeta e crítico de arte Charles Baudelaire. Numa das frases, mesmo sendo amante dos livros e da arte, ele advoga que “quanto mais o homem cultiva as artes, menos ele fica de pau duro”. O que significa uma frase dessas em meio à tirania daquele recruta zero que atende pelo vocativo de presidente da república, sabidamente inculto e ignorante?


IkaRo - Um dos problemas mais notórios do Bolsonaro é justamente esse, penso - ele é incapaz de ficar de pau duro, mesmo sendo burro, inculto e ignorante! E, até arrisco dizer, que ele seja mesmo é um tipo de necrófilo: o tipo de cara que se excita com morte, com execução, com assassinato, com extermínio! Mas, para ele, já se inventaram a pílula azul e os consolos de plástico... ou as GRANDES ARMAS compensatórias que eles gostam de exibir tanto. Quando falta a potência verdadeira há sempre a possibilidade de uma prótese que simula o poder ausente.

O Charles Baudelaire estava, bastante ao seu modo, nos alertando para algo muito sério e também fazendo uma espécie de crítica a hýbris do homem do conhecimento. A hýbris é um antigo conceito grego que quer dizer "desmedida", "desmesura", e geralmente se relaciona a uma ação humana que ultrapassa os limites do acordo e das leis entre os deuses e os homens. É uma ruptura na qual o homem transgride sua forma natural, ultrapassa os limites de sua natureza.


Essa hýbris aqui descrita é a que leva o homem a um excesso de abstração, de informação e de conhecimento, a um homem de cultura e erudição altamente, densamente e ricamente codificado, e que resulta numa forma de esquecimento de que ele é um animal feito por instâncias puramente intuitivas, instintivas e carnais que também fazem parte integrada - embora, ás vezes, contraposta - à racionalidade que ele cultua tanto. Essa hýbris leva aos erros mais "astutos" disseminados pela humanidade durante a história, tais como os valores, o estatuto do "sujeito" e do "objeto", a hierarquização de funções e papéis distribuídos dentro de uma dada cultura histórica, a determinados modelos epistêmicos e etc. Quando o homem acredita demais nessas criações da cultura e linguagem simbólica e se perde nessa função especulativa, quando ele almeja saber de tudo o que existe entre o céu e a terra e ainda mais além do espaço, quando ele cultiva esse elefantismo da sabedoria ínfima dos especialistas, ele se aliena do presente, se distancia do seu semelhante mais próximo muitas vezes desumanizando-o, se desencanta totalmente com o mundo porque tudo se torna uma fração abstrata dentro de uma equação infinita que ele se acha no poder de desvendar. Ao se afastar das coisas, o homem se hipertrofia e desarranja o mundo, intervém violentamente na natureza com seus poderes derivados da unidimensionalidade técnica da razão, cria segregação dentro da própria sociedade em nome da defesa de suas crenças e descobertas.


O "ficar de pau duro" de que ele está falando também é a constatação de que a vida é um poema misteriosamente acessível até a quem não possui muita ou nenhuma instrução ou erudição, mas possui a habilidade e sapiência de se relacionar com o mundo e com o outro de modo mais natural, espontâneo, numa linguagem mais próxima, compartilhada. Tem uma expressão nos Estados Unidos que fala algo do tipo (não sei se está correto, mas vamos lá) "a man full of thousand dollars words", que se refere às pessoas de fala mais empolada, difícil, com "grandes palavras saídas de dicionários e livros". Que é também, muitas vezes, um gesto de distinção não apenas individual - como um estilo literário, por exemplo -, mas também social, cultural, um símbolo de "prestígio". Por isso - e a arte e a poesia sempre cantaram, muito embora não apenas elas, as belezas do amor, do desejo e os encantos da sexualidade - ele completa o aforismo dizendo que "a foda é o lirismo do povo". Um homem muito sábio esse Charles Baudelaire: trafegava entre as ditas "elites", convivia com "pessoas distintas" e "esclarecidas", mas gostava mesmo era de um bom balacobaco e de uma boa dose de rebeldia!


JM - O pensador social Walter Benjamin teorizou que Baudelaire foi o responsável pela arte de flanar, ou seja, bater perna pela cidade em busca da poesia do cotidiano, do lirismo dos bêbados e dos desassistidos. Num exercício um tanto arriscado de futurologia, qual é o futuro desse artifício importante para a prosa boêmia e poética?


IkaRo - Espero muito que consigamos reaver o mais rápido possível a convivência em espaços públicos - sobretudo os abertos - após a erradicação desta doença e dessa situação toda. Claro, ainda teremos que combater as sequelas que ficarão nas pessoas. Principalmente o estímulo ainda maior ao distanciamento, o perda do contato íntimo com desconhecidos.


Flanar e conversar com estranhos era uma das coisas que eu mais apreciava fazer na vida! Tal como Bréton e os surrealista, eu também estava "em busca do Maravilhoso", ou da potência da aventura que o desconhecido possui por meio de contatos imprevistos com quem nunca vi na vida. Antes da pandemia eu mesmo estava por aí nas ruas, praças, bares, becos e avenidas - com um megafone e uma garrafa de cachaça - vendendo os meus livros, articulando bordões loucos e provocadores, estimulando uma criação espontânea na rua. Era sempre um risco, mas me deixava muito feliz mesmo se as respostas não tivessem sido as melhores e não tivesse feito bons contatos ou vendido algo.


Com a pandemia a coisa ficou ainda mais difícil porque os espaços públicos e culturais foram "proibidos", enxugados e fechados. Praticamente desassistidos pelos poderes públicos. Os artistas realmente se "foderam" nisso (principalmente os pequenos e independentes, né), mas, claro, não foram os únicos... todo mundo se ferrou. Muita gente foi parar na rua, além de ter perdido família, emprego, sustento, diante dessa morte horrível que é onipresente. E eu não compro de jeito nenhum essa narrativa do "ter que se reinventar", isso é romantizar a precariedade e estimular o assujeitamento à situação, à anormalidade disso tudo, de modo a criar cada vez mais pessoas proativas passivas - parece um contrassenso, mas é possível você se empenhar para se tornar um robô obediente: é como o capitalismo neoliberal tem conseguido bater suas metas. Espero apenas que a gente consiga retomar os espaços de convivência, cultura e arte e que voltemos com mais tesão, fúria e sangue-nos-olhos para que nossos encontros com os outros sejam alegres e redivivos, que nos façam nos sentir seguros e apaixonados novamente pela vida, sabe? Porque é isso o que ocorre: com a perda da vida artística e cultural muito de nossa alma foi pro buraco, para um tipo de limbo, de esgoto emocional e espiritual. Nossa capacidade para a paixão foi reduzida e até sacrificada.


Com a arte viva nas ruas a gente tinha uma reserva de energia para mudar nossos hábitos, nossas perspectivas e nossa convivência social - bem como nossa autoconstrução subjetiva - e isso foi roubado de nós - tanto pela situação ainda "imparável" e incerta do vírus quanto com a diluição e vigilância fascista em nosso meio. É assustador.


Mas, voltando ao exercício de futorologia - que é um arriscado tipo de esporte especulativo altamente filosófico que tanto pode conter tanto esperanças quanto terrores aparentemente insolúveis - se o mundo social real não se tornar literalmente um espaço em que cada um conviva dentro de uma bolha - como já é a realidade no mundo digital - seja por questões climáticas de qualidade do oxigênio, destruição de florestas, poluição, etc - ainda podemos ter boas chances de fazer vingar uma poética da sociabilidade expansiva em que o outro não representará mais uma "ameaça", mas uma descoberta, uma aventura da cumplicidade com estranhos.


JM - Voltando a falar de sua obra poética: em InacabadaMúsica, por assim dizer, houve uma verborragia alertadora sobre a invasão das máquinas e como elas estão abarrotando nosso caminho e reduzindo as possibilidades da existência à robotização da liberdade e libertinagem. Como nos livrarmos dessa enrascada?


IkaRo - Que sejamos luddistas desejantes! O que fizeram os luddistas no período agressivo da primeira Revolução Industrial na Inglaterra? Destruíram as fábricas. As fábricas não, mais especificamente as máquinas... pois a leitura da situação que tinham era de que as máquinas estavam destruindo os empregos ao roubar a função de um grupo de pessoas. Eram eles "vândalos", bandidos ou pessoas ingênuas? É fácil demais cair numa estereotipização preconceituosa se não enxergarmos algo fundamental como o contexto, as dificuldades e possibilidades de que dispunham. Para o capitalista é claro que é bem mais vantajoso - e conveniente - empregar máquinas do que mão-de-obra humana: máquinas não tem crises existenciais, não discutem, não fazem greves, não precisam de plano de saúde ou salários, aposentadoria, tudo o que necessitam são de revisões, reparos e updates para modernizar o desemprenho. Mas, não é apenas o sistema de produção o sistema que deve ser "destruído" ou superado, digamos. (Ou mesmo o sistema simbólico que estrutura o condicionamento à produção infinita e cega.) Mas também o próprio consumo! Ou, melhor dizendo, o "consumismo" que é a ideologia reforçada pelos hipnólogos, publicitários e demais agentes da obediência coletiva. A destruição das cadeias do consumismo com seus produtos estúpidos e inúteis, com seus estilos de vida forjados, com sua máquina de propaganda enganosa, isso sim seria a destruição da Sociedade de Espetáculo como bem gostaria Guy Debord e os situacionistas!


Todo esse estímulo à falsa libertinagem da visão - essa pornografia do olhar descorporificado - é uma prisão para o corpo e para a mente construída num mundo de aparências. Um jogo social suicida - veja o quanto abunda de pseudo-erotização nos aplicativos, nas próprias redes sociais, uma libertinagem de fachada. O futuro disso? Pessoas em dates românticos com robôs ou bonecos - jantar à luz de velas com o seu vibrador ou boneca sexual. Incapazes de se relacionar com pessoas reais com seus defeitos reais, histórias reais, necessidades e até fantasias. Tudo isso faz parte dos mecanismos de sedução estimulados para se criar zumbis autômatos, pessoas com sua própria vontade e seu desejo controlados, saqueados e designados por terceiros por meio de controle de respostas, condicionamentos, algoritmos e escravidão à pseudo-legitimação que as redes sociais criam com a aparência de dar ao indivíduo uma pequena "participação" virtual no poder coletivo.


Essa é uma enrascada em que todo mundo "quer foder", mas ninguém fode!: só se fode, rs.


Ikaro e Beck olham discos no sebo de rua no centro do Rio de Janeiro, 2020. Foto: J.Lee


JM - E como impedir que A Hora dos Assassinos ceife nossos amores e nossas utopias?


IkaRo - Uma das mais misteriosas dialéticas - e também um dos enigmas que ajudaram a moldar a consciência filosófica através dos milênios - é a questão dos (des)arranjos entre o indivíduo e o grupo ou a sociedade e o Estado. No entanto, o que a pandemia tem nos mostrado é o seguinte, e essa é uma lição dura de engolir para muitos de nós: nenhuma evolução é "individual". Quer dizer, você pode até se autoperceber "evoluído" em certos pontos ou aspectos de sua vida. Mas, o que conta mesmo, no fundo, é a evolução geral da espécie - este é o cômputo que faz diferença no âmbito geral da vida global e que assegura novos nichos de sobrevivência. O que o neoliberalismo tem feito - reafirmo aqui - é estimular a falsa consciência de que existe alguma saída individual e se você não consegue acessá-la ou passar por ela a culpa é sua e SOMENTE sua, de mais ninguém. Foi você quem falhou, que fracassou, oras! O neoliberalismo blinda a crítica à estrutura e desloca o eixo do debate para o egocentrismo e a individualidade atomizada. Cria a fábula funambulesca do "self-made-man" que eu satirizo chamando de "self-mad-man", aquela história clássica de que fulano venceu sozinho na luta porque veio lá de baixo galgando seus espaços, sofrendo, se abnegando, perdendo e ganhando para conquistar a sua posição de "sucesso". Uma mentira socialmente estimulada por sua grande utilidade no sistema que se alimenta de exclusividade e de separação. Se se propaga à torto e a direito que isso é possível, louvável e se apresentam "exemplos" às pessoas - os indivíduos sem esclarecimento e que não enxergam o ponto cego da coisa: a própria estrutura - elas, então, acreditam, "compram" e se põem em marcha para executar as ordens deste ideal e se sacrificam e auto-imolam no altar da sobrevivência em nome da fábula materialista. O que quero dizer com isso? Que devemos entender que isso só vai ser superado quando começarmos a REALMENTE enfrentar a coisa enquanto coletividade da espécie - sem barreiras nacionais, sem fronteiras ideológicas, sem considerações étnicas, raciais, sexuais, religiosas que nos separem em clubes, seitas ou "partidos". Todavia, como tem se mostrado difícil isso - principalmente porque o poder tem esse feitiço - e esse efeito viciante de uma droga, como bem alertara William Burroughs - em que os homens se reúnem em seus clubes secretos - ou nem tão secretos assim - para conspirar contra a liberdade da sociedade e contra os setores mais fragilizados. E é nisso que A Hora dos Assassinos soa. Os nossos "inimigos" não estão em outros países ou lendo outro livro sagrado ou praticando rituais para outro(s) Deus(es), mas estão aqui mesmo entre nós e possuem os mesmos rostos, os mesmos gestos e expressões, falam o mesmo idioma e professam as mesmas "crenças" e "valores" que grande parte de nós. Quando realmente atingirmos essa consciência coletiva de que somos uma mesma espécie sofrendo a mesma e exata ameaça de extinção, quando realmente "despertarmos de nosso sono dogmático" policiado pelas ideologias, crenças e demais instrumentos medievais - e modernos - de tortura e segregação, aí sim poderemos impedir que os nossos sonhos, as utopias e os amores sejam sacrificados.

Porque é isso o que atravessamos agora e com o que temos evitado a todo custo confrontar - e até o próprio Ministro da Economia, um verme vendido chamado Paulo Guedes, reclama em fala pública recente que "as pessoas querem viver mais de 100 anos", " aí não dá porque vai quebrar a Economia", blablabla. Ou seja, não se pode nem mais ter a simples ambição e gana biológica de viver, de se permanecer vivo. Por caras como esses do tal clubinho genocida a humanidade sequer teria saído da Idade Média onde a probabilidade de vida raramente ultrapassava a média dos 30 anos de idade. Essa gente que quer fazer passar a ideia tosca de que trabalhar como escravo até morrer - sem direitos, sem liberdades, sem prazer, sem saúde, sem educação, com o único direito de contrair dívidas e alguma doença que seja - não é só uma necessidade vital, mas um "privilégio".


JM - Se há cem anos, a humanidade provou o líquido do hedonismo após a Gripe Espanhola, com a Geração Perdida retratando-o, hoje temos de controlar nosso tesão em nome da saúde coletiva. Como impedir que o massacre em curso no país não acabe por levar também aquilo que nos é mais íntimo: nossa sexualidade e nossos sonhos?


IkaRo - Sua pergunta me faz pensar em como o fascismo - ou os microfascismos - tem elaborado sua estratégia de capilaridade em todos os aspectos singulares da vida cotidiana! Porque é disso que se trata, meu nobre amigo - do controle, até mesmo do controle por meio de um gozo falso, pré-arranjado, pré-fabricado. É o projeto da existência objetal, por fim, concretizada: quando os objetos manipulados pelo poder se relacionam para reproduzir o poder e enaltecer o mesmo.

Não consigo mais acreditar em ninguém que diz que faz algo "por Deus, pela Família" - aquela indigesta cena do golpe de 2016 com o Impeachment de Dilma ainda me faz ter espasmos de vômito. Simplesmente porque a "família", "Deus" - que são conceitos materializados pelos hábitos em um sistema cultural - jamais estiveram "ameaçados" sob forma nenhuma! Muito pelo contrário - sempre foram reforçados de modo quase irrestrito, martelado à força em nossas psiques desde que éramos ainda fetos, que nem sequer existíamos! O que sempre esteve "ameaçado" pelo despertar dos povos foi o sistema econômico em que 0,01% fatura e todo o resto (sobre)vive na merda! Muitas vezes é nessa trincheira que se encontram os maiores falsos e canalhas existentes, os maiores dos maiores hipócritas - e cada um de nós, meu amigo, é um pouco ou um tanto hipócrita, sabemos. Essas pessoas com baixa capacidade cognitiva que berram para todos os lados que qualquer dissidência - por mais ínfima e subjetiva que seja - ao seu sistema de adestramento e castração, ao seu regime de signos e imagens tautológicas - vai destruir os "valores da civilização", essas pessoas que são incapazes de perceber as nuances e - para "inteligir" grotescamente o mundo reduz tudo e todos ao preto ou ao branco, ao "comunista" ou ao "cristão" - perdem de vista a riqueza da vida e os grandiosos frutos da história, além de recusarem o presente maravilhoso que é perceber o devir que se atualiza em tudo o que vive! Sim... é necessário que pessoas mais progressistas e avançadas ocupem postos de liderança ou posições estratégicas na sociedade, mas apenas até o ponto em que isso não seja mais sequer necessário e que uma cultura mais aberta e menos reacionária seja estimulada a dialogar com tolerância e inclusão às diferenças. Nesse momento estamos sob os ataques constantes e infatigáveis de uma guerra cultural estimulada por setores convulsivos da extrema direita - principalmente as parcelas bolsonaristas e olavistas -, mas essa gente é arredia a qualquer convivência real, são pessoas autoritárias e incapazes de uma compreensão humana e expandida das coisas, dos fenômenos e acontecimentos. São pessoas em que sempre viveram sob a cultura do mando e do desmando, inaptas à riqueza da gentileza e do amor verdadeiro. E até de uma conversa profícua e civilizada.


Há saídas? Bem, a primeira, acho, é que uma guerrilha cultural aconteça e se propague para impedir o avanço e o abocanhamento generalizado destes reaças dos instrumentos da cultura, da linguagem, da educação, dos valores e das mídias - os meios de produção e reprodução simbólica. Em segundo lugar é tentar evitar a reprodução e propagação de suas mentiras arquitetadas, de seu envenenamento ideológico. E, claro, isso sendo feito organicamente e cooperativamente com os outros e sem temer as intimidações destes trogloditas. E outra: quanto menos essas pessoas se reproduzirem - agora nos termos não só sociais, culturais e simbólicos, mas, estritamente biológicos mesmo - melhores chances terão a espécie humana de ter algum futuro. Caso contrário, não poderemos sequer sentar na mesma mesa em que alguns destes possam estar sentados sem risco de sermos confundidos como iludidos acerebrados com tendências fascistas, como diz aquele ditado que existe na Alemanha contemporânea: "Se há numa mesa quatro pessoas e chega um nazista e senta com elas e nenhuma se levanta para sair, então é porque ali estão sentados, na verdade, cinco nazistas".


Poeta em seu habitat natural, o boteco pé sujo no centro do Rio de Janeiro, 2020. Foto: J.Lee


JM - Comente aquilo que você gostaria de falar, mas o entrevistador por algum motivo esqueceu de perguntar.


IkaRo - Creio que atravessamos um dos momentos mais simbólicos e únicos em toda nossa história.


Nunca chegamos a ter tanto poder tecnológico concentrado em nossas mãos, tanta potencialidade de concretização por meio das ciências e das técnicas, dos saberes e pesquisas partilhadas, no entanto, o que temos presenciado é uma espécie de regressão espiritual, mental, um desgaste social que tem nos imobilizado e despotencializado quase que completamente. O que é de uma tristeza quase infinita.


Já é tempo de atingirmos um real estágio revolucionário em nossa sociedade. E isso não é uma mera "utopia". Dispomos de meios incríveis para isso - a internet, a arte, a linguagem, as mídias tecnológicas (as "armas comunicativas" e difusores de saberes e consciência), as formas de convivência que temos criado de modos mais esclarecidos e inclusivos. A capacidade e habilidade para o estímulo de uma vida criativa junto a outros, a possibilidade de conversar e negociar as diversas necessidades, susceptibilidades e especificidades de cada um. O incremento nas habilidades nossas e alheias.

Mas, o que nos tem impedido de vivermos a vida como uma sensacional e estrondosa obra de arte? Um poema monumental em que a história humana enfim seja realizada pela liberdade de todos e cada um? As formas cativas da falsificação, do desejo, as seduções do espetáculo, da economia. A falsa premiação e o destaque no mundo dos simulacros. A Economia tornou-se uma entidade viva que devora os homens, vidas inteiras, animais, vegetais, minerais, as terras, as paisagens, as espécies - e que obriga tudo a se curvar diante de sua magnitude, de sua escala e de suas promessas.


Um mundo em que as pessoas matam umas às outras, escravizam umas às outras, abusam, abjuram e torturam umas às outras por um pedaço de papel é um mundo corrompido do começo ao fim. É pra isso que crescemos? É pra isso que temos filhos? É pra isso que fomos sacudidos de nossas infâncias, de nossa leveza e de nossas brincadeiras de descoberta, de nossas alegria espontânea de estar vivo? Para se encaixar em algum molde de doença nervosa, mental, emocional, povoado de fantasmas e com suas rachaduras tapadas por consumismo, farmacologia, turismo, viagens guiadas e prazeres pagos? É em nome do vil metal e da propriedade privada que tenho que me torna um explorador imoral e uma criatura sem coração e sem qualquer constrangimento diante da miséria dos outros só para obter um dígito a mais em minha conta bancária ou ganhar algum estatuto de "superioridade" e me tornar o "bambabã infalível do rolê"?


Temos nas mãos a chance única de re-criarmos um mundo novo, de re-fundarmos uma civilização aberta e criativa, lúdica e capaz de estimular a imaginação, as diversas subjetividades e as reais e fecundas faculdades humanas. E se não despertarmos para isso o destino de todos e de cada um - não importa se rico ou pobre, camponês ou urbano, "cristão" ou "comunista", preto ou branco, mulher ou homem, ou o que for! - vai ser ou uma rebelião incontestável das forças naturais ou a destruição em massa proporcionada por nossos próprios meios mortíferos - guerras químicas, biológicas, ou termonucleares, etc - que afundará o mundo - e a humanidade - em uma cova coletiva sem nome.


Temos todas as chances do mundo de fazermos algo radicalmente libertador e emancipador, mas estamos perdendo-a enquanto somos convencidos à força por eles a cavar nossa própria sepultura em nome de uma reputação, um título ou um espaço na sociedade dos destruidores do mundo. Diga-me você, um mundo feito à imagem e semelhança do desespero pelo lucro a todo custo tem algum futuro? Ou será que apenas tem o passado insepulto diante de si mesmo? Ou acordamos agora ou iremos dormir para sempre.



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