• Lúcia Braga

Tenentismo Arcaico

Política

Em sua estreia no JM, Lúcia Braga discorre sobre as peripécias do conroné Ciro Gomes e sua aproximação com a extrema-direita

Ciro Gomes ataca novamente. Foto: Dida Sampaio/Reprodução


O Twitter segue sua função na nuvem cibernética como a turma do fundão na internet, e nessa quarta-feira (16), Ciro Gomes oficializou seu lugar como baderneiro e feitor de nuvens de fumaça.


Que o Brasil está em uma crise política, econômica e social não é nenhuma novidade; contudo a crise estética é a que me assombra hoje, porque os comentários de Ciro Gomes nos atestam uma das duas possibilidades: ou que ele faz parte dessa direita chula, brega e démodé que conseguiu ganhar as eleições de 2018, ou essa estética furou a bolha da extrema direita e foi para onde quer que Ciro esteja se classificando ultimamente.


A política é um jogo institucional, e as instituições possuem normas de conduta, etiqueta e etc. Esse é um dos motivos que Bolsonaro choca tanto, porque se fosse Dória fazendo as mesmas ações que ele, porém com um discurso polido e o suéter amarrado nos ombros, com certeza teríamos menos manifestações negativas da grande mídia, não que sejam tantas agora.


A figura de Ciro Ferreira Gomes sempre conseguiu transitar muito bem dentro do dito “alto clero” da política tradicional (melhor representada pelos integrantes mais longevos do senado que participam da CPI), sempre exibindo seu vasto currículo e seu orgulho de ter feito muitas amizades ao longo de seus anos de carreira política em todos os podcasts que foi em sua pré-campanha (que no meu ver existe desde que ele voltou de Paris pós 2018).


Trocando de marqueteiros, tentando encontrar a sua narrativa estética e seu personagem, ele encontrou uma persona que apela para o brasileiro médio: o coroné bruto que não leva desaforo para casa (lembra alguém?), o que ele falhou em perceber é o tanto que essa estética por mais que lhe possa ser uma delícia, tem alguns custos. O respeito de Dilma Rousseff é um deles.



Que o PT precisa fazer um mea culpa e uma auto crítica já é fato dado, agora a maneira em que o vice-presidente do PDT escolhe abordar isso é uma maneira burra, porque todo o esforço de marketing que ele faz para colocar seu plano econômico neo desenvolvimentista como uma terceira via se perde em seu posicionamento pessoal, ou branding, como diriam os coaches.


Chamar a figura política mais injustiçada na nossa história institucional recente de incompetente, inapetente e presunçosa não é somente misógino e estúpido, é queimar uma ponte que ele com seu 1 dígito de pesquisas não poderia se dar ao luxo.


Por mais que previsível, a misoginia de Ciro Gomes nos mostra para onde as narrativas políticas estão indo e porque um discurso como o de Lula que fala “brasileiro feliz de novo” é tão bem aceito por diversos setores populares e da centro-esquerda. Não somente porque a violência cansa e desmotiva, mas também porque respostas violentas provam uma coisa assustadora: seguimos sendo pautados.


É a estratégia básica de sobrevivência do homem heterossexual cisgênero: falou algo que não gosto, retruco no grito ou digo que é “mimimi”, a famosa birra de quem não conseguiu o que queria.


O horizonte é assustador para 2022, porque é um horizonte de possibilidades que podem ser muito vorazes para nosso povo. Qualquer eleito que não seja Bolsonaro terá praticamente uma carta-branca moral aos olhos do público, afinal, nada pode ser tão ruim quanto esse desgoverno. E Ciro Gomes erra brutalmente ao tentar se aproximar da estética desse vilão.


Ir para Paris foi um erro. Um erro gigante. Em um cálculo político para se manter “de centro” ou pelo menos continuar na ótica antipetista, Ciro Gomes perdeu a oportunidade de ter sido sim um líder da centro esquerda institucional, e o que restou para ele, é o que sempre resta para as figuras políticas eleitoreiras em tempos de crise: se virar para a direita.


Agora, o que falta para ele perceber é que o discurso do grito tem data de validade, e ela está próxima. Ninguém ri de memes ou de viralizações no Twitter quando se está passando fome ou velando aqueles que ama, e sinto que cada vez mais fica impossível desvencilhar Ciro Gomes dessa imagem.


Me assusta a constante necessidade de polêmicas para ter visibilidade política, afinal se engana quem pensa que essas atitudes não são pensadas de antemão. Me assusta porque nos mostra como a direita está pautando não somente o conteúdo do debate, mas também a estética do mesmo. Se em 2018 descobrimos isso via correntes de zapzap, o biênio 19-21 nos mostra que o mesmo ainda funciona para anzóis e cortinas de fumaça.


A infantilidade de Ciro Gomes é muito mais sintomática do que outra coisa, não somente porque crava mais ainda sua derrota nas urnas como também nos mostra um certo desespero em relação a 2022, que a agenda claramente será “todos contra um inimigo”, perdão, minto: agora será “todos menos Ciro Gomes contra um inimigo”.


O lado positivo é que toda essa bagunça derruba a máscara para qualquer um que pensasse que sua figura política era minimamente de esquerda, agora é fazer o mesmo com o neo desenvolvimentismo que ele prega tão religiosamente.

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