• Metamorfose

Torrente poética

Literatura


Poeta IkaRo MaxX satiriza contexto sócio-político brasileiro em novo livro. ‘BozzonarUbu - Sátira Distópica Hiper-Realista Em Cinco Atos E Meio’ está disponível para venda na Amazon


Poeta IkaRo MaxX - Foto: Júlia Lee


Marcus Vinícius Beck


Com a mente bêbada pelo escândalo do dedo-médio do poeta erguido contra a cafonice estou inebriado pela embriaguez literária. É visceral, apenas, mas que exprime uma torrente poética capaz de pulverizar quarteirões. É um genuíno deboche, um escracho, uma subversão – eu diria. Um sopro reconfortante de alento em tempos desalentados concebido no calor do escrutínio do desastre que tornou a sobrevivência no Brasil verde-oliva uma tarefa estrepitosamente ofegante. Pela primeira vez em muito tempo – quiçá desde os anos de Primavera Estudantil, arrisco – sinto minha alma lavada pelas águas da sátira e do riso.


Mas vamos com calma, pois o leitor pode fechar esta página e deixar o escriba falando sozinho com suas hipérboles lisérgicas… O livro é de um poeta e filósofo paraibano radicado em São Paulo, IkaRo MaxX, que peregrinou pelo mundo como Henry Miller e Arthur Rimbaud e desde meados desta década vem confeccionando obras literárias da mais alta zombação. O alvo? Totens, patriarcas e tiranos. Isso, por si só, seria motivo suficiente pra você correr atrás dos escritos deste arqueólogo dos mistérios, não? Claro, seria a resposta. Mas ao desfilar os olhos pelas estrofes do foda-se, em “Full Foda-se”, atesto: trata-se de um estiloso náufrago poético.


Fui ao encalço do cara e não me decepcionei. “Na peça acabo pegando emprestado um personagem que inaugurou uma época no teatro… o “Ubu Rei” (1896), do Alfred Jarry, porque para além da referência estava tentando compreender a absurdidade abusiva desse líder que tem movido todo tipo de sandice, farsa e violência como programa de (des)governo”, me diz MaxX, sobre “BozzonarUbu – Sátira Distópica Hiper-Realista Em Cinco Atos E Meio”, seu novo livro que está a venda na Amazon em e-book. BozzonarzUbu, o sujeito que está no centro da sátira, é um personagem narcisista primitivo, arrogante e com pouca habilidade cognitiva.


“Ele incensa e sequestra a cena com a replicação de um comportamento e visão de mundo fascista amparada e sustentada por setores milicianos, neopentecostais e especuladores financeiros neoliberais”, conta. MaxX escora-se em Bob Dylan: “Por trás das cortinas, na coxia do Poder, estão sentados os ‘mestres da guerra’”. Então, munido da sabedoria folk, na peça o poeta se permitiu a não deixar nada do contexto político brasileiro de fora ao retratar o que chama de “caricatura-memística que se elegeu com base em um terrorismo de desinformação”. “A peça reflete a distopia em forma de sátira, o que me permitiu o tom inflamado e sem pudores”.


“BozzonarUbu” tem como fio condutor elementos que denotam certa comicidade no ofício de ridicularizar os poderosos, mas sem ser meramente panfletário. Há, sim, um quê de ‘vendetta’. Ao mesmo tempo é um desnudamento onde as máscaras que tampam os rostos dos endinheirados se escafedem.  “Quis já na capa traduzir essa coisa toda: o BozzonarUbu cegado pela máscara quase alçado a um tipo de Godzilla tosco (com o corpo do Ubu Rei do Jarry – que tem quase a mesma assonância de Jair… Socorro!)”, confessa o poeta, rindo. “Literalmente pisando no seu “gado sem cabeça”, os seus eleitores fanáticos e estupidificados”. 


Período histórico


O poeta IkaRo MaxX, além “BozzonarUbu” e “Full Foda-se”, lançou “Saliva” (2016) e “Uive Quando Se Sentir Eterno” (2016), em edições bancadas pelo seu próprio bolso, na editora ProvokeATIVA – selo editorial do qual é dono. Escreveu ainda as “68 Teses Provokeativas A Favor Da Arte-VIDA & Contra As Formas & Juízos Fascistas, Conservadores & Falso Moralistas” (2019) e “A Arte da Subversão” (2019). Com as eleições de 2018, o marginal das palavras decidiu falar comicamente sobre o processo histórico que o Brasil vem passando desde o impeachment. “Gostaria que fosse tudo um produto de uma imaginação perversa e enferma”, diz.


Em “BozzonarUbu”, o leitor vai se deparar com uma verve hilariante, daqueles de fazer gargalhar até o mais sério dos seres humanos. “O alívio cômico só sendo possível pela óbvia constatação do ridículo da coisa toda. Só que essa risada é bem triste e sombria. E na fresta de cada dente estão amontoados cadáveres incontáveis… da guerra cotidiana e da pandemia”, afirma MaxX, acrescentando: “A denúncia do real exige a superação do próprio real por uma ação que modifique os rumos da história”. Mas, vem cá, meu caro, como resistir neste Brasil cujo apreço pela liberdade não é, digamos assim, tão verdadeiro como queiramos que seja?


“Infelizmente a lisergia presente é apenas a ressaca de uma bad trip infinita e continuamente atualizada nessa campanha de ignorância programada e legislada, de armamento de milícias conservadoras que amam a escravidão e a submissão a líderes, principalmente os que lhes lembram o quão impotentes são na realidade, esses que emulam uma virilidade afetada que reage a uma emasculação imaginaria que afeta seus juízos e suas condutas sociais e existenciais”, filosofa, arrematando: “Como deve ser um inferno compreender uma realidade tão complexa sob um regime discursivo tão simplório e esboçado por conspiradores profissionais.”


“BozzonarUbu” me reconcilia com a vida. A escrita é honesta, debochada, pura e sem murmurinhas. Uma torrente caleidoscópica em meio às caducas teorias da estética literária. Se a libertária obra mostra que o Brasil e o mundo não tem se mostrado um lugar de liberdade, ao mesmo tempo escancara a possibilidade de rir daqueles que não se dão ao direito de sorrir. Se sob os vigilantes coturnos da farda a gente vê os caretas, a literatura alimenta nossa combalida alma de embriaguez utópica. Discordo de Henry Miller, o gênio da sacanagem filosófico-existencial: é possível ser brilhante quando não se está bêbado. “BozzonarUbu” nos prova isso. Leiamos, portanto.