• Victor Hidalgo

Um comunista no meio dos patriotas

Crônica

No fatídico "dia D", camarada Hidalgo se infiltra meio aos neofascistas. Confira a crônica sobre o ato antidemocrático em São Paulo

*Som de disco riscando, congela o frame e começa a tocar Baba O'Riley*


É, esse sou eu. Você deve estar se perguntando como que eu me meti nessa situação envolvendo os atos antidemocráticos do dia 7 de setembro puxados pelo presidente da república Jair Messias Bolsonaro (sem partido). Bom, tudo começou há alguns dias.


Estava trabalhando como de costume no meu emprego de período integral quando recebi uma mensagem no grupo do Jornal Metamorfose se eu não poderia cobrir o ato com a fotojornalista independente Riot Lari, que já cobriu diversos atos para o JM. Bom, pensei ser uma boa oportunidade de ir em campo e entender um pouco o que se passa na cabeça dos apoiadores de Bolsonaro.


Fomos conversando e pensando como seria esse dia, afinal, tudo indicava que poderia ser o grande ponto de virada do governo federal em suas ameaças golpistas. Estava com medo? Sim, como não estar? Mas, também estava ansioso. Após resgatar dois gatos (um deles tendo que ser devolvido, infelizmente) e ter aproveitado alguns dias de folga que foram os dias mais felizes desse ano para mim, estava preparado psicologicamente para o fatídico dia. Curiosamente, onde eu estava hospedado esses dias, era de frente a uma casa que ostentava uma orgulhosa bandeira do Brasil, além de um furgão com a mesma bandeira presa no capô. Já imaginei que o dia seria longo.


Dentro do metrô da cidade de São Paulo eu já pude medir a temperatura dos atos. Muitas pessoas de verde e amarelo, sorrindo e gritando palavras de ordem, infestavam os vagões quentes daquela tarde de terça-feira. Curiosamente eles chegavam sem máscaras na catraca da estação, mas eram obrigados a vesti-las assim que passavam por elas.


Olhei nos olhos de cada um deles, muita gente branca de meia-idade com muito tempo livre nas mãos, muitos idosos e crianças, e um ou outro rockeiro perdido que claramente não entendeu a mensagem das músicas que gosta tanto de escutar, mas não ouvir.


Descendo na consolação pude ter uma noção melhor da dimensão que as coisas iriam tomar. Tinha visto no Twitter que possivelmente seria um ato com poucas pessoas, que Bolsonaro não tinha mais poder de mobilização. Bom, a primeira impressão que tive foi realmente que ele era um sucesso.


Subindo as escadas rolantes, observei abaixo de mim aquela onda de pessoas sorridentes, cantantes e pintadas. Até parecia ser a final da copa do mundo, mas eles estavam apenas pedindo intervenção militar e a destituição dos ministros do Supremo Tribunal Federal. O que tornou aquilo tudo muito estranho, como se eu estivesse vivendo um grande delírio coletivo, um sonho febril. Mas podia ser o calor também, já que o dia prometia ser infernal.


Os gritos seguiam fortes, todos animados com a grande micareta verde e amarela que iria se desenrolar na Avenida Paulista. Me encontrei com Lari e seguimos para o carnaval fora de época.


Conversamos um pouco antes de submergir naquele inferno vibrante, escondemos bem o nosso medo já que nenhum de nós aparentava estar com ele. Lari tem os cabelos curtos e pintados de azul, com medo de sofrer agressões, resolveu escondê-los debaixo de um gorro preto. Ambos estávamos com máscaras PFF2, talvez os únicos usando elas em todo o ato.


“Devo colocar o capacete de proteção e a máscara de gás?” - perguntou Lari para mim.


“Não. Eu tenho uma ideia melhor” - respondi vendo que um senhor estava exercendo sua função de patriota e vendendo bandeiras do Brasil para os transeuntes. Tive a ideia de vestirmos elas como se fossem capas e nos misturar no meio da multidão, iríamos chamar menos atenção assim. E que época maravilhosa estamos vivendo! Levei uma bela facada pelo Pix gastando R$ 50,00 nessa brincadeira.


Seguimos cortando por dentro do ato em direção a FIESP, sendo que a estação do MASP estava fechada. Segundo informações que recebemos, Bolsonaro iria discursar por ali, em cima do carro de som. Em nosso caminho, observamos os mais variados tipos de apoiadores do Capitão (expulso do exército por terrorismo).


Uma figura pendurada em um dos postes de luz me chamou a atenção. Era um homem de meia-idade, sem camisa e usando uma bandeira do Brasil como se fosse a capa de um super-herói. Em uma das mãos ele segurava uma cerveja e gritava palavras de ordem alterado, e claramente sem máscara. Dava para ver a saliva voando em direção aos manifestantes a cada palavra proferida. Por algum motivo, ele direcionou sua atenção para um vendedor ambulante, esses que aproveitam muito bem seja qual for a pauta que está na rua, e desceu para tentar agredi-lo. Não durou muito tempo, um homem musculoso na minha frente com uma camisa da CBF o segurou e aplicou um mata-leão, deixando o super-patriota mais calmo. E como não podia faltar, pessoas ali já diziam que ele era um esquerdista infiltrado. Consegui sentir o cheiro de bebida forte vindo dele mesmo usando duas máscaras.


No meio daquele monte de gente, eu ainda conseguia ouvir o som do obturador que capturava toda a fauna golpista que estava dançando ao som de Legião Urbana e os mais diversos artistas. Ela apertava o gatilho da câmera e congelava o momento febril que estávamos vivendo para a eternidade.


Passar pelo carro de som tocando “Que País É Esse” foi um momento tão surreal que eu tive que gravar. Não é possível que ao ouvir “ninguém respeita a constituição” esse povo não consiga se olhar no espelho e entender que ele está falando sobre eles. Bom, para surpresa de ninguém, alguns dos golpistas estavam com camisas da banda Rage Against The Machine.


Ex-militares, aposentados, militares da reserva, tios, pais e mães, cornos. Essa era a gama de pessoas que estavam naquela muvuca, tudo isso regado a churrasquinho e muita cerveja. Era como se fosse um passeio pelo parque no domingo, só que no meio da semana, com fascismo.


Além dos cartazes que eram praticamente os mesmos. Até os erros de inglês em alguns deles era igual. Depois ficamos sabendo que uma igreja os distribuiu quando o ato estava começando.


Nos assustamos em certo ponto quando um homem passou por nós com a cabeça sangrando, pensamos o pior: ele tinha sido agredido por quem estava no ato por ter dito alguma coisa que os desagradou. Corremos para alcançar ele. Era um homem simples, usando chinelos e uma máscara PFF2, uma calça, camisa puída e sangue escorrendo pela sua testa. Ao ter sido perguntado por nós o que tinha acontecido, ele simplesmente respondeu: “Eu briguei por um beck” e foi embora. Bom, voltamos a andar.


Demos a volta por detrás do MASP para conseguirmos chegar mais perto da FIESP. Algumas pessoas passando mal no caminho aproveitando a sombra dos prédios para se refrescar, mas finalmente um pouco e espaço para conseguir respirar. Soltamos alguns gritos de ordem acompanhando o urro da multidão para que não suspeitassem da gente.


Não sabemos dizer ao certo se neonazis faziam parte dos movimentos golpistas daquela tarde. O número de calvos e carecas devia ser apenas um indicador da idade dos envolvidos. O que torna tudo aquilo mais perigoso, já que um homem que perdeu o seu cabelo não tem mais nada a perder.


Esperamos por horas de frente ao carro de som. Um homem com indumentárias similares às de Elton John conversa com o público e dizia “O presidente já está chegando! Ele passará de helicóptero e vai descer aqui”, realmente alguns helicópteros militares passaram pela Paulista, mas nenhum pousou na FIESP. O gado estava impaciente, já se podia ouvir gritos de corno e outras palavras de baixo calão para o presidente. Ali mesmo já sentimos que o clima do bolsonarismo estava esfriando, que seus eleitores já estão perdendo a paciência com a covardia do presidente.


Resolvemos sair dali, já conformados que Bolsonaro tinha desistido dos seus eleitores naquela parte da Paulista. E no caminho, passando por outros carros de som, descobrimos que quase todos estavam falando que o presidente iria aparecer no seu veículo para discursar. O delírio estava um pouco mais surreal do que eu esperava.


Muitos idosos. Uma senhora sentada no meio fio na descida do MASP com as mãos na cabeça passava mal por conta do calo enquanto uma outra a acudia com uma garrafa d’água.


Atrás do museu uma outra base de apoio do bolsonarismo estava presente: Moto Clubs. Motos de diversos tipos de tamanhos estavam estacionadas por ali, e seus pilotos também. Um deles deu o azar de virar as costas para nós, foi quando ele expôs o nome do grupo que fazia parte. Estampado na sua jaqueta de couro estava escrito: Solteiros MC. A piada parece que é entregue pronta.


Manifestante vestia roupas "militares" na Av. Paulista. Foto: Larissa Rodrigues


Conversando com alguns dos que ali estavam, as expectativas eram altas. A avenida lotou, mas não chegou perto dos dois milhões que Bolsonaro queria. Segundo estimativa do governo de São Paulo, 125 mil pessoas compareceram ao ato. Sendo que 27% dos manifestantes eram de fora da grande São Paulo. Mas o que a realidade importa para os apoiadores do presidente? Um deles me falou terem mais ou menos um milhão de pessoas na Paulista. Claramente essa pessoa não faz ideia de quantas pessoas são um milhão de pessoas.


Por fim, talvez uma das coisas mais perigosas e surreais aconteceram comigo e com Lari no final do ato, quando estávamos sentados descansando e conversando sobre o que tinha acontecido. Pode não parecer grave como falo, mas é algo que temos que ficar de olho: distribuição de livros da organização The Way to Happines, uma ONG da igreja da Cientologia, de L. Ron Hubbard.


Claro que uma seita teria interesse em uma grande massa de pessoas facilmente manipuláveis que buscam em Bolsonaro um grande líder para salvar o país dos comunistas e da esquerda. Rimos muito no momento, porque não sabíamos disso. Pensamos que era algum tipo de evangelização de alguma igreja. Bom, não deixa de ser, mas pensar que a cientologia tinha agentes interessados no meio de uma manifestação da extrema-direita é algo para ficarmos de olho.


Bom, e a foto que tirei na capa dessa crônica? Foi assim que eu cheguei aqui. Finalzinho de ato resolvemos voltar para nossas casas. Mas ainda tinha um pouco de fôlego dentro de mim e eu não podia perder a oportunidade de quebrar um pouco a tensão falando com esse povo, não é?


O sujeito da foto que veste uma máscara de caveira, peito desnudo com diversas tatuagens militares e que ostentava um orgulhoso coturno com cadarços vermelhos e dois cinturões táticos, era apenas mais um dos que compunham as falanges bolsonaristas. Me aproximei dele pedindo uma foto, falando do exército. Ele muito feliz e reciproco, aceitou. Estava desde o começo do ato torrando debaixo do sol quente, mas parecia realizado em ver a mobilização nas ruas.


Patriota Hidalgo seguiu em busca daqueles que estavam dispostos a atentar contra a democracia pelo seu presidente. Três senhores que deviam ter pelo menos uns cinquenta anos cada estavam na calçada conversando, prontamente fui falar com eles.


“Vamos acabar com isso que tá aí?”, falei. Eles pareciam um pouco confusos no começo, mas o senhor de óculos, camisa da CBF e bandeira nos ombros prontamente respondeu “O quê?”, pensei estarem mais alinhados, mas lembrei a ele que estávamos na rua contra o comunismo, aí ele se animou. Seu colega era um homem de médio porte, careca e com barba que estava ali pelo mesmo motivo, tudo isso com uma cerveja por perto. Conversamos um pouco, sobre como não estão deixando o Bolsonaro trabalhar e o STF sendo hoje um dos adversários do presidente.


Um dos últimos que conversei foi um senhor de Campinas que estava aproveitando o vento do metrô para fazer a bandeira do Brasil tremular bem alto. Ele também estava muito feliz de estar ali, naquela grande micareta da extrema-direita. Não disse nada de novo, as pautas eram as mesmas dos outros que ali estavam, mas ele também não soube explicar elas.


Bolsonaro acabou saindo mais fraco, apostou todas as moedas nessa manifestação que não recebeu nem 5% do público que ele esperava. Tanto que, não muito depois, teve que pedir ajuda do verba volant scripta manent Michel Temer para pedir desculpas ao STF, literalmente um “desculpa, tava doidão”.


O que vai ser do bolsonarismo que sofre mais uma fragmentação? Ainda é cedo para dizer. Mas estamos vendo algumas reações interessantes online, daqueles que são pagos pelo governo para ficar do seu lado, e daqueles que querem ser pagos. Patriota Hidalgo encerra seu relato. SELVA!


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