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Um exemplo colombiano

Atualizado: Mai 17

Editorial

A crise na Colômbia se destaca por uma característica que o Brasil conhece bem: a violência policial, incluindo centenas de feridos, mortos, desaparecidos e denúncias de estupros

Violência policial na Colômbia deixou mortos e houve até denuncias de estupro - Foto: Luisa Gonzalez/ Reuters


Dias de protestos violentos marcam o cenário atual dos nossos hermanos colombianos. A pressão popular resultou na revogação da proposta de reforma tributária e na queda do até então ministro da fazenda, Alberto Carrasquilla, que pediu renuncia um dia depois do presidente Iván Duque, do partido direitista Centro Democrático - historicamente ligado ao latifúndio e ao setor privado - retirar seu projeto de lei.


Mas, isso por si só não afastou a população, de pequenas e grades cidades, das ruas. Como vem mostrando a BBC News Brasil, a reforma tributária foi apenas uma espécie de estopim para problemas estruturais maiores, com origens históricas, econômicas (especialmente via neoliberalismo na região), culturais e sociais.


Em 2019, essas pautas, girando em torno especialmente das políticas de austeridade daquele país, movimentaram os colombianos e agora elas voltam com força, representadas, por exemplo, pelo movimento Greve Nacional. Naquele ano, assim como ocorreu em outros países da região, houve um crescente desapoio aos governos e suas agendas pró-mercado.


Inclusive, em 2019, 210 pessoas perderam a vida na América Latina devido à repressão contra manifestações, segundo a Anistia Internacional.


Os colombianos, sem uma liderança única e abarcando diversos setores sociais, com a queda do projeto de lei, estão pautando a necessária reforma das forças policiais. No país, esses foram estruturados com base em combate de guerrilha e aplicam muitas dessas táticas nos próprios civis em atos democráticos. Outro exemplo são os comuns abusos de autoridade no dia-a-dia, a falta de mecanismos disciplinares e de fiscalização que sejam realmente imparciais e efetivos.


Outra demanda, histórica, é a efetivação dos acordos de paz, ocorridos em 2016. Que, inclusive, Duque e o Centro Democrático criticaram. E, vale lembrar, o conflito armado com as FARCS tem ligações históricas com a luta frente ao imperialismo na região. Duque é também o presidente que quer acabar com o cultivo de coca no país. O cultivo da coca na Colômbia costuma ser muito ligado ao combate ao tráfico, mas se esquecem dos aspectos culturais e tradicionais de várias populações que também se dedicam a esse cultivo e que não o destinam para o tráfico (ou, se sim, há aqueles ligadas a necessidade de subsistência de pessoas pobres e desamparadas pelo Estado).

A luta pelo fim da desigualdade e exclusão social (é o segundo país mais desigual da América Latina, atrás do Brasil) também estão presentes nesses movimentos dos últimos dias.


Políticas neoliberais, como a reforma tributária, visavam aumentar impostos, recaindo especialmente sobre a população que já vinha sofrendo com a pandemia, enquanto protege outros setores, com isenções fiscais a grandes empresas, por exemplo, em meios a déficits na educação e na saúde. Duque é um representante desse clientelismo. O presidente colombiano chegou a anunciar uma “recompensa” de 10 milhões de pesos para quem oferecer informações que possam identificar e capturar manifestantes sob acusação de “vandalismo”. Ele defendeu a atuação violenta da polícia e chamou os atos de criminosos.


No Brasil, nos últimos dias, atos em defesa da população negra, contra a violência e o racismo da polícia, e em prol da educação começaram a ascender. O caso colombiano é bastante elucidativo, não só pelos aspectos de políticas de austeridade e ataque a grupos da população, mas também como paralelos ao enfrentamento de governos de direita e clientelistas. É preciso que a força do povo colombiano e sua luta contra a violência policial nos inspire e nos dê esperanças para um tão esperado levante latino-americano contra as atrocidades do capital. Lutemos!


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