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América Latina

Golpe de extrema-direita na Bolívia não resiste as organizações populares. Eleição realizada no último domingo (18) coloca o MAS de volta ao executivo

Protesto contra o golpe, 2019. Foto: Ronaldo Schemidt/AFP


Vítima de um violento golpe de estado em novembro de 2019, a Bolívia vivia sob o governo da direitista Jeanine Áñez desde então. O golpe teve apoio de países como os Estados Unidos e Brasil e foi justificado com acusações da Organização dos Estado Americanos (OEA) por fraudes nas eleições que deram vitória a Evo Morales, em 2019. As acusações foram desmentidas pouco tempo depois, mas já era tarde: com exército nas ruas e invasão do palácio por fanáticos religiosos, colocou-se de volta no poder as oligarquias agrárias e racistas do país, concentrada na chamada “Meia Lua”, região oriental.

O golpe, assim como a crise que abalou a Bolívia, está ligado ao projeto de saque e pilhagem imperialista europeu e norte-americano, muito bem exemplificado pelas recentes falas de Elon Musk. A partir da virada do século, foi a vez do neoliberalismo assolar o território, marcando-o com pobreza, precarização, desigualdade e crises políticas. A Guerra da Água e a Guerra do Gás são exemplos disso e da forte repressão por parte da polícia e do exército, acarretando em dezenas de mortes de manifestantes ao longo das últimas décadas.


É nesse contexto que em 2005, Evo Morales, principal voz de oposição e do Movimento Al Socialismo (MAS), é eleito presidente com grande apoio das massas, um programa de transformações radicais para o país e maioria dos deputados, mesmo com um senado ainda conservador. A Bolívia então inicia um importante período de obtenção de recursos e avanços sociais, como redução da pobreza, desigualdade, mortalidade infantil e o estado plurinacional.


Entretanto, o fato é que a direita local nunca aceitou o desenrolar desses avanços. Tentativas de golpes, fraudes eleitorais, movimentos separatistas e etc não são uma novidade, a exemplo da fracassada tentativa de golpe em 2008. Nos primeiros mandatos, Evo ainda contava com forte apoio popular, porém essa relação de confiança foi se deteriorando frente a equívocos do governo, a exemplo do não rompimento com o modelo extrativista e primário exportador, concessões e conciliações com setores da elite e a ida a posse de Jair Bolsonaro. Junta-se a isso o problema do personalismo.


Mais recentemente, com a crise global e a ofensiva da extrema-direita em âmbito mundial, a versão boliviana ganha novo ânimo e cresce via denúncias de corrupção. Nesse quadro, Evo realiza referendo com consulta sobre a possibilidade de concorrer a um quarto mandato presidencial. Foi aí que essa extrema-direita, com sucesso, disseminou a ideia de um governo ditador e corrupto, o “sistema” responsável pelas mazelas da população que precisava ser combatido. Evo perdeu o referendo, mas recorreu a Suprema Corte e obteve a permissão. Assim, ocorreram as eleições de 2019, com Evo Morales e Carlos Mesa como os principais candidatos.


Evo venceu, em um momento de polarização e baixa na popularidade. Sem aceitar o resultado e denunciando fraudes, a extrema-direita organiza e realiza ações violentas nas ruas já no dia seguinte ao pleito, inclusive com presença de grupos paramilitares e apoio de alguns setores da polícia. Evo sai a público tentando mediar a situação e aceita a realização de novas eleições. A brutalidade se intensifica, a direita fascista, na figura de Fernando Camacho, ganha popularidade.


A violência política toma as ruas do país, Patricia Arce, prefeita de Vindo, foi sequestrada, agredida e obrigada a caminhar descalço pelas ruas enquanto era ameaçada de ser queimada viva; Esther Morales e mais dois governadores tiveram suas casas incendiadas; familiares de opositores foram sequestrados, dentre outros exemplos. Logo depois, a polícia e as Forças Armadas recomendam publicamente que Evo deixe o país. Morales e seu vice renunciam e se exilam na Argentina.


A portas fechadas, e com impedimento via ameaças da entrada de parlamentares, o Senado se reúne para consolidar institucionalmente o golpe. Adriana Salvatierra, presidenta do Senado e integrante do MAS, que deveria assumir a presidência do executivo, foi impedida de entrar na sessão e ameaçada de morte caso não renunciasse. A vice-presidenta do Senado, Jeanine Áñez, integrante da extrema-direita, se autoproclamou, segurando uma bíblia, presidenta da Bolívia, pregando uma suposta democracia e a realização de novas eleições.

Eleições 2020 e o receio de novo golpe

Exército nas ruas de La Paz no dia das eleições. Foto: Joédson Alves/EFE


Em um ano de governo, marcado por repressão a trabalhadores, perseguição a oposição e retirada de direitos, a Bolívia mergulhou em um colapso econômico e social. Depois de vários adiamentos, as eleições finalmente foram marcadas e realizadas no último domingo, dia 18. Jeanine Añez e Jorge Quiroga, com baixo apoio popular, desistiram da disputa. Carlos Mesa, que se diz de centro, tinha cerca de 34% dos votos e Fernando Camacho, cerca de 17%. No entanto, o candidato do MAS, Luís Arce, ex-ministro da economia, foi líder nas pesquisas desde o início, vencendo em primeiro turno neste domingo, com mais de 50% dos votos e uma grande mobilização popular, mesmo com as Forças Armadas ameaçando a população a não ir votar e usando, inclusive, as medidas sanitárias.


La Paz, a capital do país, amanheceu toda militarizada no dia da eleição.

Após o resultado final, já na segunda, Áñez publicou no Twitter parabenizando o vencedor e aceitando a derrota. Mas, o risco de novo golpe ainda existe. Mesmo Arce tendo adotado um discurso de superação pacífica do período de golpe, o apoio que recebeu com Mesa, especialmente das oligarquias, e Camacho, dos fundamentalistas, não devem ser desprezados, até porque ainda contam com apoio das Forças Armadas e dos Estados Unidos.


Segundo Rogério Gimenes Giugliano, doutor em sociologia e professor na Universidade Federal da Integração Latino-Americana, “a situação é surpreendente na Bolívia. Não pela vitória do MAS, isso já era esperado, mas pela frágil reação das forças de elite de direita, com inclusive os grupos golpistas já aceitando a derrota nas eleições, eu esperava uma reação mais forte”. Existente algumas explicações para tal, tanto a frágil reação quanto para a vitória do MAS, e elas estão mais ou menos em paralelo. Como Giugliano explicou ao JM, a primeira coisa é que a população está, nesse momento, muito organizada e mobilizada, assim como durante todo o governo golpista, o que foi central para esse vitória e volta ao poder do MAS. Assim como também foi para a desmobilização da direita, que se dividiu entre candidatos de uma linha mais fascista e os de uma linha mais neoliberal, a direita fragmentada deu espaço para uma reação do MAS. Um segundo ponto é a gestão desastrosa do governo golpista na economia, nos aspectos sociais e reação a pandemia.


O risco de golpe continua existindo, mas segundo Giugliano ele muito provavelmente não será imediato. “Da maneira como as coisas estão transcorrendo, me parece que a direita vai fazer um recuo estratégico e se reagrupar, mas o golpe não parou, essas forças não vão desistir. Então, as tentativas de golpe são os desafios ai posto na Bolívia”, conta o professor em entrevista ao JM.

Desafios para o novo governo

Alguns desafios estão postos para o MAS e vão determinar o ressurgimento contrarrevolucionário da extrema-direita. “Por um lado, você vai ter uma tentativa da elite boliviana de fragmentar e cooptar o MAS; um segundo desafio é lidar com os militares, porque os golpistas na verdade aparelharam o sistema militar em uma tentativa de frear a resistência popular e os militares estão muito tomados, inclusive a presidenta golpista fez várias promoções para generais, para tentar destruir qualquer apoio que o MAS e o Evo tenham nas forças militares. Além disso, aconteceram os massacres, e o MAS clama que vai investigar e levar a justiça os massacres de camponeses que aconteceram pelo exército. E, por fim, o que é bastante importante também é a questão dos recursos naturais, até o Elon Musk está envolvido nessa história. A luta pelos recursos naturais”, explica o doutor em sociologia.


Na grande mídia brasileira pouco se falou sobre o importante momento no país vizinho. O que nos resta são informações da mídia alternativa e os ativistas, importante para entendermos de fato o que se passa na Bolívia e o que podemos aprender com essa experiência, já que em meio a uma onda de governos de extrema-direita, a Argentina e a Bolívia parecem agora respirar um pouco mais aliviadas. Como pontua Giugliano: “a principal lição para o Brasil é a mobilização da população, de povos indígenas, originários, organizações camponesas e das periferias urbanas. Isso é um trabalho que o MAS faz a muitos anos, de manter mobilizada e consciente a população boliviana”.

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