• Lays Vieira

Uma outra vida para velhos textos

Sede de Arte

Lendo o passado de forma viva e motivada por lutas do presente, pois, para mudar o mundo, precisamos conhecê-lo. É justamente isso que Rosa vem a nos oferecer

A atriz alemã Barbara Sukowa interpreta a revolucionária Rosa Luxemburgo, em filme de mesmo nome dirigido pela cineasta Margarethe von Trotta, no ano de 1986



Meu primeiro contato com os escritos de Rosa Luxemburgo foi através de seu célebre livro “Reforma ou Revolução”, ainda durante minha licenciatura. Àquela altura, o marxismo ainda era uma novidade para mim, especialmente aquele vindo através das lentes de uma mulher.


De lá para cá, Rosa se tornou uma autora importante na minha formação política e por isso fiquei imensamente feliz ao ser designada para escrever sobre o mais novo lançamento da editora Boitempo em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo: “Rosa Luxemburgo e a reinvenção da política”, de autoria do cientista político e professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), Hernán Ouviña, e em comemoração ao aniversário de 150 anos do nascimento dessa grande marxista.


Judia polonesa, migrante e com deficiência, que sofreu com o antissemitismo (não confundir com antisionismo), economista, militante, grande pensadora política e fundadora do SPD (o Partido Social-Democrata Alemão), Rosa foi violentamente assassinada em janeira de 1919, um crime de conotação política e misógino.


Mas, suas teorias não ficaram no passado, ganham vida a partir de perguntas e lutas do presente, mais especificamente neste livro: as lutas populares da América Latina em tempos recentes. Sem afastar os aspectos centrais do pensamento da autora, Ouviña traz um rico diálogo entre estes e as práticas políticas latino-americanas.


Rosa Luxemburg foi uma ferrenha humanista, com uma postura independente e original; carregava consigo o ideário do socialismo democrático, popular e antiburocrático; defendendo a ação autônoma dos de baixo; pautava que não só a acumulação primitiva, mas também o saque, a destruição da força de trabalho e da natureza são necessidades permanentes da acumulação do capital; contribuiu de forma ímpar para o entendimento de que não existe um modo único de produção, mas vários modos interagindo entre si; criticava o entendimento determinista de um progresso linear, advogando por uma história aberta à ação humana.


Dentro do marxismo e do socialismo, a autora também é muito conhecida por sua polêmica teórica com Lênin, sobre a concepção, ação, estratégias e princípios do partido, espontaneidade e organização, qual via a revolução deveria seguir e sobre o conteúdo e forma do novo movimento operário de então.


Mas, vale ressaltar, ao contrário do que alguns dizem por aí, ambos se respeitavam e nutriam imensa admiração e estima um pelo outro. Discutiam vivamente, mas também possuíam muitos pontos de semelhança. Como mostrou Paul Mattick: ambos encarnaram a oposição ao reformismo e ao revisionismo da II Internacional, ficaram ligados à reorganização do movimento operário durante e depois da Primeira Guerra e jamais separaram a teoria da prática.


Com uma escrita didática, Ouviña coloca para o leitor justamente os interesses que Rosa tinha sobre temas que muitos da ortodoxia marxista ignorou ou marginalizou, mas agora desempenham papel fundamental na vanguarda do pensamento e ações radicais de várias lutas, como as nossas, referentes aos direitos das populações tradicionais, o meio ambiente, o enfrentamento do neoliberalismo, do colonialismo e do imperialismo, etc.


O pensamento luxemburguista é revitalizado como ponte analítica e ferramenta crítica para nossas lutas. Inclusive para vários dos feminismos, mesmo Rosa nunca tendo olhado o capitalismo e a revolução por um viés de gênero ou raça, mas sim por uma perspectiva de classe e totalizante que nos ajuda a transcender as divisões artificiais construídas pelo capital. Diferente de outros movimentos de gênero, raça e etc, que trazem à cena apenas o aspecto da identidade.


Ouviña nos mostra desde o início a relevância e atualidade dessa grande mulher, fato reiterado por Silvia Federici, a quem coube escrever o prefácio da obra: “Sua previsão sobre a inevitável expansão planetária do desenvolvimento capitalista tem sido plenamente confirmada, assim como sua confiança na capacidade dos/as explorados/as de se mobilizar e inventar novas práticas políticas para bloquear essa expansão”.


A centralidade do protagonismo popular e o internacionalismo militante é recorrente no livro, especialmente por contribuir com o debate sobre o plurinacionalismo e a solidariedade entre os povos (importante em um contexto pandêmico e de governos de extrema-direita xenófobos, dentre outros preconceitos). Ouviña também mostra o peso da autora para o debate sobre as lutas culturais, educacionais, de autodeterminação, por direitos e contra modelos burgueses de rebeldia.


Essa reinterpretação crítica da obra luxemburguista, atrelada a experiências como a do Zapatismo, é um prato cheio para compreender a nossa realidade, de sul global, e também para conseguir modificá-la. Ouviña trata Rosa não só como grande intelectual e pensadora, mas também como alguém de realizações práticas e como um ser humano dotado de sentimentos, de uma subjetividade maravilhosa e também revolucionária. Diferente do que o stalinismo buscou desenhar sobre a autora, inclusive proibindo publicações de suas obras.


Por fim, caso tudo isso ainda não tenha convencido você, leitor, a mergulhar de cabeça nesse lançamento, dois pontos merecem um destaque: 1) Ouviña faz um belo paralelo entre Rosa e o grande e original José Carlos Mariátegui, 2) os incríveis desenhos que ilustram o livro, de autoria do artista visual e muralista popular colombiano Oscar González (o Guache).


'Rosa Luxemburgo e a reinvenção da política'


Autor: Hernán Ouviña


Tradução: Igor Ojeda


Revisão técnica e apresentação da edição brasileira: Isabel Loureiro


Prefácio: Silvia Federici


Editora: Boitempo


Páginas: 184


Ano de publicação: 2021


Preço: R$ 41,00




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