• Lays Vieira

Uma série documental para falar de coisa bem séria

Sede de Arte

Produção da Netflix traz suspense policial para discutir as consequências negativas do mau uso da internet e o estigma social sobre pessoas com distúrbios psíquicos


Série documental retrata vida de Elisa Lam. Foto: Usa Today/Reprodução


"Cena do Crime: mistério e morte no Hotel Cecil" é uma série documental-ficcional lançada recentemente pela Netflix. À primeira vista, a série dirigida por Joe Berlinger, pode parecer apenas um mistério policial já batido, tendo em vista que nessa temporada de estreia ela aborda o famoso caso da estudante canadense Elisa Lam, encontrada morta em um hotel no centro de Los Angeles, Estados Unidos, em 2013. Mas, essa série de quatro episódios traz temas e discussões muito mais profundas.


Elisa era uma jovem sonhadora, adepta do velho Tumblr (uma plataforma de blogging que permite aos usuários publicarem textos, imagens, vídeos, citações, etc e hoje caiu em desuso) e que decidiu viajar sozinha para conhecer a Califórnia. Por conta dos preços, se hospedou em um hotel no centro da cidade e é aí que a história começa.


A morte da estudante gerou muita repercussão na mídia local, internacional e, principalmente, na internet. Especialmente depois da publicação, por parte dos investigadores, do único vídeo registando Elisa no hotel no dia do seu desaparecimento. Nele a jovem se comporta de maneira estranha e seu súbito sumiço sem deixar pistas acabou gerando diversas teorias e desencadeando uma onda de “detetives web” (internautas que se fixam em um evento e passam a investiga-lo por conta própria).


Com vários depoimentos, cada episódio narra uma das teorias até o desfecho final, além de ir nos apresentando, principalmente por meio dos textos publicados por Elisa no Tumblr, quem era essa jovem escritora talentosíssima.


A primeira e mais forte hipótese da política estava ligada a violência contra turista, especialmente porque se tratar de uma mulher viajando sozinha (pois é, se você é mulher é inclusive proibido em alguns países viajar desacompanhada de um homem....isso mesmo cara leitora, só porque você é mulher, cis ou trans, viajar sozinha é risco de vida) e hospedada no Cecil. Isso se dá por que descobrimos que o hotel, desde sua construção, foi marcado por casos de violência, especialmente depois que a área que o circunda foi transformada, pelo próprio estado americano, em um “descarte a céu aberto” de pessoas pobres, dependentes químicos e pessoas que se prostituem. E eu não estou falando de dezenas, mas de milhares de pessoas que o Estado simplesmente descartou.


Com a conivência das autoridades, o lugar se tornou a região mais perigosa de Los Angeles, em que moradores de rua dividiam espaço com lofts. Daí o Cecil já foi palco de assassinatos, suicídios e inclusive já abrigou um serial killer.


Outra hipótese, dessa vez não levada a sério pela polícia, mas muito comum na internet, foi explicações sobrenaturais para o que aconteceu, tendo em vista o vídeo onde Elisa se comporta de forma estranha e o histórico de “energia negativa” do hotel. Famosa também é a teoria de que um funcionário a matou e toda a equipe encobriu, isso por que o vídeo divulgado havia sido editado.


Mas, existem dois pontos, que perpassam toda a série e várias das teorias, que merece destaque: do que a internet é capaz e o estigma que pessoas com algum distúrbio psíquico (também chamado de transtorno mental) ainda sofrem na nossa sociedade, destacadamente as mulheres. Infelizmente ainda é comum vermos mulheres acometidas, por exemplo, com transtorno de ansiedade, bipolaridade ou depressão serem tachadas de loucas ou dramáticas.


E pior, viver em ambiente estigmatizante frequentemente acarreta o autoestigma, que juntamente com o primeiro são dois obstáculos fundamentais à integração social e à vida plena, nos seus diversos aspectos, desses indivíduos. Elisa tinha depressão e era bipolar, ninguém durante sua viagem soube ajuda-la em um momento de crise.


Por fim, mas não menos importante: as várias facetas, especialmente negativas, da internet. Se por um lado esse era um espaço seguro onde Elisa realmente conseguia se expressar, com o desenrolar dos fatos vemos como a internet pode ser um “portal para o inferno”. A grande leva de “detetives web” desse caso construiu uma mescla de informações verdadeiras e falsas, em um período onde fake news nem era um termo conhecido, mas que serve bem de exemplo para como informações falsas ou destorcidas podem prejudicar uma investigação.


Além disso, julgamentos embasados em fatos não comprovados ou fake news também perpassa a série: de um espaço seguro ou local de expressar ideias, ela também pode ser palco para se encenar julgamentos e dar vereditos, que por sua vez podem acabar com a vida, a carreira ou a saúde mental daquele individuo julgado e condenado (com ou sem provas).


"Cena do Crime: mistério e morte no Hotel Cecil", parece aquela série superficial que serve apenas como distração, mas acredite, você irá refletir sobre muitas coisas ao assistir com atenção essa produção.


Serviço


Série: "Cena do Crime: mistério e morte no Hotel Cecil"

Diretor: Joe Berlinger

Onde: Netflix




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