• Marcus Vinícius Beck

Vai ter copa?

Atualizado: Jun 4

Botequim Literário

O ditador Emílio Garrastazu Médici e o 'rei' Pelé seguram a taça Jules Rimet, em Brasília, 1970 - Foto: Getty Imagem/ Reprodução



Futebol e política, pasmem, se misturaram. Para tristeza daquele apresentador global.


Sem o lirismo, este botequim literário acha difícil encontrar uma definição adequada: escárnio, demência, psicopatia, crime, delinquência, genocídio? Como descrever o ímpeto de o Brasil aceitar sediar um evento que os argentinos e colombianos recusaram, embora estivessem tudo nos conformes para recebê-lo? Simples: não se brinca com a ameaça de uma nova cepa.


Corrigindo, até se brinca se o presidente em questão for um ex-milico necrófilo e ressentido expelido do quartel por terrorismo. Ou, vai lá, se o país não estiver comprometido em combater o vírus, e aceitar posar às lentes da História como um Benito Mussolini e Adolf Hitler, ditadores que sequestraram a Copa do Mundo de 1934 e as Olimpíadas de 1936, respectivamente.


Mussolini, idealizador do fascismo e assim como Bolsonaro também simpático aos motoqueiros, chegou a ameaçar de morte os jogadores da seleção italiana na semifinal contra a Áustria e na final diante da Checoslováquia. Reza a lenda que ele mandava sósias para amedrontar o time. Entre eles, o craque Giuseppe Meazza - ídolo da Internazionale e do Milan, dois dos mais populares da Itália. A equipe da casa levou o título e a Copa fora usada como palanque político.


Não vamos longe, porém. No Brasil, enquanto Tostão, Pelé, Gérson e Jairzinho enchiam os olhos do público com um futebol que estimulara o escritor Nelson Rodrigues a conceber as crônicas mais brilhantes já escritas sobre a filosofia, o drama e a sociologia das quatro linhas, o general Emílio Garrastazu Médici usurpou a conquista do tricampeonato, em 1970, ao se deixar fotografar com a Jules Rimet em mãos. A História, com agá maiúsculo, tem dessas coisas.


Agora, em se tratando da Conmebol, cá pra nós, não chega a ser tão surpreendente assim. A entidade, a exemplo do negacionismo que reina no Planalto, só pensa em acumular cédulas em seus cofres corruptos. Nem que para isso, meu rapaz, seja preciso mandar os jogadores entrarem nos gramados de um país que se tornou um cemitério a céu aberto.


Para desalento coletivo, esperar alguma postura política de Neymar e rapaziada é uma utopia tão distante quanto o monstro do comunismo, ao qual o Brasil, salve Bolsonaro, está e - sempre esteve - há léguas de distância. No escrete, não há um craque ao nível de Doutor Sócrates, Reinaldo ou Afonsinho, cuja luta pelo passe livre inspirara uma música do cantor Gilberto Gil. O mundo e, consequentemente, o esporte são outros: a grana, hoje, manda.


E se para cumprir esse protocolo, por que não?, Neymar tenha de fazer uma tabelinha com Gabriel Jesus sobre o necrotério aberto da América Latina, num continente que foi passado para trás pelos países do norte, ricos, na guerra da vacinação em massa? É o capitalismo revelando, digo, mostrando sua ética, a da quem tem paga, quem não tem, paciência. E sigamos.


Sigamos, não, carajo: alguém precisa colocar um freio na sandice da necropolítica de cartolas, meu caro Eduardo Galeano, que nunca chutaram uma bola na vida e do presidente (a que ponto chegamos: usar esse vocativo para se referir ao genocida) que, mais uma vez, extrapola o poder lhe conferido pelas urnas, em 2018. Bolsonaro quer repetir o feito dos piores ditadores do século passado. Não por acaso, seus ídolos são os tipos mais decrépitos da natureza humana.


Na dúvida, à História: em 1975, lembra o jornalista Juca Kfouri numa coluna publicada na Folha no dia 31 de maio, o país deveria receber os Jogos Pan-Americanos quando uma epidemia de meningite devastou o estado de São Paulo. A imprensa, sob censura dos militares, esses pelos quais o terrorista verde-oliva tem um estranho caso de paixão mal-resolvida, foi impedida de noticiar o caso, porém os fardados chafurdaram: o evento migrara para a Cidade do México.


Anos antes, durante o surto de Gripe Espanhola, o Brasil desistiu de sediar a Copa América, em 1918. E no ano seguinte, assim como se viu no carnaval mais icônico de todos os tempos, eternizado pelo texto rodrigueano, o público pôde retornar aos estádios para assistir a Seleção Brasileira levantar a taça do então batizado Campeonato Sul-Americano.


Não há nada, simplesmente nada, que justifique a realização do torneio nos estádios brasileiros, pela segunda vez consecutiva. Os times veem-na como um fardo, pois ficarão sem seus principais jogadores. Já a Conmebol, bem, a Conmebol – entidade que conseguiu a façanha de ter mais dirigentes engaiolados do que a CBF, a mesma das camisas verde e amarela das manifestações de extrema-direita – quer fazer a indústria futebolística girar. O show, afinal, não pode parar.


Sem vacina, com a campanha de imunização lenta e leitos de UTI ocupados, Goiânia receberá sete partidas da Copa América do Estádio Olímpico, na região central. Depois o menino isentão do plim-plim diz que o jogo não se mistura com política. Não se mistura, claro, só é a política em si.


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