• Lays Vieira

Ventos favoráveis, mas ainda não garantidos, para a esperança popular

Sociedade

Intensa e polarizada, eleições no Peru tem um segundo turno disputado voto a voto e ainda indeciso

Pedro Castillo, de 51 anos, líder sindical - Foto de Gian Masko/AFP


Entre 2016 e o primeiro semestre de 2021, o Peru vem passando por um período de instabilidade política e parece que ela não vai acabar tão cedo. No período supracitado, o país teve quatro presidentes: Pedro Pablo Kuczynski, Martin Vizcarra, Manoel Merino de Lama e, por fim, Francisco Sagasti. O ex-presidente será substituído em julho pelo vencedor do pleito que vem ocorrendo desde 11 de abril, quando houve o primeiro turno, onde os candidatos Pedro Castillo e Keiko Fujimori passaram para o segundo turno, então disputado no último dia 6.


Castillo é professor e sindicalista, pertence ao partido Perú Libre e representa as alas à esquerda. O candidato surpreendeu no primeiro turno das eleições ao conseguir o maior número de votos, especialmente no interior do país, em províncias pobres e agrárias, o que se repetiu no segundo turno. Ele lidera as pesquisas de boca de urna e a apuração. Tem como principal proposta a reforma constitucional, uma reivindicação que motivou protestos em novembro de 2020 no Peru, e mudar o regime tributário das multinacionais no país.


Fujimori, filha de Alberto Fujimori, que implementou um governou autoritário na década de 1990 e acusado de diversos crimes, é a representante da direita conservadora peruana e integra o partido Fuerza Popular. Ela ficou presa entre 2018 e 2020, alternando períodos de liberdade e de cárcere, por acusações de corrupção envolvendo a empreiteira brasileira Odebrecht e quase não passou para o segundo turno.


Já no segundo turno, focou-se no discurso contra o temor de que o Peru caísse em um suposto governo de extrema esquerda, ganhando apoiadores majoritariamente nas cidades mais ricas. Na campanha, pautou fortemente um discurso de moralização na política e de combate ao crime, mesmo envolvida em escândalos de corrupção e tendo sido presa. Também defende manter a Constituição de 1993, promulgada pelo seu pai e promover uma suposta "verdadeira economia de mercado", como listou o Portal G1 no perfil que fez da candidata.


De um lado, Keiko se beneficia do posto de poder se tornar a primeira presidenta mulher do Peru. Por outro lado, Pedro ataca o modelo neoliberal. Essa é uma eleição bastante fragmentada, em um dos piores cenários da pandemia no país. Foram 16 candidatos, Castillo foi ao segundo turno com 19% dos votos, e Fujimori com 13%. Hoje, dia 8, já foram apuradas 96% das urnas. Castillo contabiliza 50,3% dos votos contra 49,7% da adversaria. A diferença é de menos de 100.000 votos. Grande parte do que falta ser apurado são votos de regiões rurais e de selva, reduto de apoiadores de Castillo.


Por outro lado, ainda faltam os votos estrangeiros, que acumula um grande atraso, segundo o El País e conta com quase 750.000 eleitores autorizados a votar do exterior. Essa parcela da população tende a favorecer a candidata conservadora.


Keiko, inicialmente se posicionou a frente na apuração, mas com o alcance e posterior disparada de Castillo, acusou o adversário de fraude eleitoral, mas sem apresentar provas. o Peru, não basta o fim da apuração, ainda mais com uma diferença de votos tão pequena. Depois do fim da contagem e verificação das atas, a decisão ainda irá para o Tribunal Eleitoral do país, que dará o veredito sobre o pleito.


O que fica visível é que a eleição, muito polarizada no segundo turno, recortou o país, especialmente, em termos de classe e de geografia, em um país onde as questões socioambientais seguem como uma das principais causas de conflitos sociais e marcado por altos índices de violência.


Porém, a possibilidade de vitória de Castillo pode ser um novo sopro de esperança para um continente que vem sendo desolado pelo neoliberalismo e na luta contra a ascensão da extrema direita pelo mundo. Há ainda a preocupação das reações em uma eventual vitória da esquerda. A crise e, principalmente a polarização do país não irão findar com as eleições. A luta com o neoliberalismo e o autoritarismo é algo que deve permanecer constante. Fiquemos atentos ao desenrolar dos próximos dias no Peru.



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