• Júlia Aguiar

Viva Zumbi dos Palmares!

Negritude

Dia Nacional da Consciência Negra completa 17 anos em 2020 e violência contra os negros aumenta 11%

Escritora Carolina Maria de Jesus com sua máquina de escrever. Foto: Arquivo Nacional/Reprodução



Em 20 de novembro de 1695, o guerreiro Zumbi dos Palmares é assassinado pelo bandeirante André Furtado de Mendonça. Zumbi é decapitado e sua cabeça é exposta em praça pública na cidade de Recife. A data virou símbolo de resistência, se tornando o Dia Nacional da Consciência Negra, em 2003.


Foi após 308 anos de apagamento que o dia foi consolidado e esse tempo diz muito sobre a sociedade brasileira. O movimento negro de resistência começa em 1539, quando os primeiros negros escravizados chegam em Pernambuco. Zumbi liderou o Quilombo dos Palmares, movimento que mais resistiu contra o latifundiário escravagista, de 1605 a 1695.


A censura contra a resistência negra começa no século 16: a violência e repressão já contabilizam 481 anos de vigência.


Segundo dados do Atlas da Violência, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Inpe), 75,7% das vítimas de homicídio no Brasil eram negras em 2018, e na última década esse número cresceu 11,5%.


Em 2019, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Polícia Militar matou 5.804 pessoas: desse montante cerca de 75% eram negras. Nos últimos anos, a terra tupiniquim infelizmente noticiou algumas mortes emblemáticas que evidenciam o racismo e a violência policial.


Carros alvejados pela polícia do Rio de Janeiro, com pessoas negras inocentes dentro, balas de fuzil “perdidas” entre as favelas, crianças com guarda-chuvas que foram “confundidas” com bandidos, mulheres negras que sumiram, pessoas assassinadas pelo simples fato de serem negras. João Pedro, Agatha, Marielle Franco e Anderson, Miguel... e outras vítimas foram lembradas durante protestos no país.


A historiadora e mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Yordanna Lara Pereira Rego, afirma que o encarceramento em massa da população negra é intrinsicamente ligado ao passado escravagista da sociedade brasileira. “O conceito de raça tem origem nesse momento de invasão e fundação do Estado brasileiro e é agenciado para legitimar à hierarquização e à manutenção da hegemonia do branco europeu, povo colonizador do Brasil. O que significa que o racismo é a base de fundação do nosso Estado e, como resultado, as instituições externam violentamente o racismo de forma cotidiana, e à sociedade o reproduz”, conta a historiadora em entrevista ao JM.


A precarização do acesso a população negra aos seus direitos básicos é uma governabilidade para manter a hierarquização racista que sustenta ainda hoje e perversamente nossa sociedade, explica Yordanna. Ela pontua que se antes, o lugar do negro era nas senzalas, agora é na cadeia, na lógica do Estado.


Resistência

Arte feita por Greice Lux (@greice.lux)


O ano de 2020 foi marcado por grandes protestos ao redor do mundo contra a violência à população negra. A primavera antirracista começou em maio, e os atos intitulados de “Vidas Negras Importam” sofreram com a opressão do estado brasileiro.


Na cidade do Rio de Janeiro, o protesto do dia 7 de junho contou com a presença do Exército, tanques de guerra e fuzis, Polícia Militar, tropa de choque e cavalaria. Cerca de três mil manifestantes se encontraram em frente à estátua de Zumbi dos Palmares, símbolo da luta contra a escravidão no Brasil e líder do maior quilombo do país. O ato contou com revista dos manifestantes pela Polícia Militar, de forma autoritária e sem explicações as pessoas que tentavam chegar à praça.


No Brasil, os atos foram convocados por coletivos negros, autônomos e antifascistas, a Polícia Militar (PM) na maioria das cidades revistou de forma autoritária manifestantes antes e depois dos atos.


Apesar de existir um claro sufocamento de informações sobre a contínua violência contra a população negra em 2020 - fator derivado da censura e descaso do governo de Jair Bolsonaro (sem partido) – este foi um ano de resistência.


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