• Lee Aguiar

Vivas, livres e combativas

Doce Viagem

Marcha histórica das mulheres no #8M em Goiânia, 2017. Foto: J.Lee/Arquivo


Queridas companheiras de trincheira,


mais uma Marcha Internacional das Mulheres é convocada nesse 8 de março, data historicamente essencial para a luta pela liberdade dos povos. Esse ano no Brasil, infelizmente, temos pouco a comemorar: a cada 8 minutos uma mulher é estuprada, os feminicídios aumentaram, o salário diminuiu, com a pandemia escancarou-se a desigualdade social, racial e de gênero.


Pensei muito em o que publicar hoje, nesse espaço que me é tão especial: o Doce Viagem. Aqui, nestas linhas tortas, consigo ser livre para expressar qualquer coisa que eu queira, seja como for, com a responsabilidade de manter minha periodicidade e continuar o diálogo aberto com os leitores. Aprendi muito nesses 4 anos de coluna e algo que sempre me marcou profundamente é a necessidade de me manter verdadeira com o que escrevo, esse é um espaço de incitação poética pela liberdade, e eu nunca neguei que fosse.


Eu gostaria de gritar aos ventos minha revolta, a dor de minhas hermanas, de queimar patriarcas e mudar as coisas imediatamente pois estamos morrendo! Compartilho com vocês um grito que também ecoa em mim, dito em outras palavras por outras mulheres, portanto, a coluna de hoje será diferente.


Publico na íntegra o comunicado nacional da Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil sobre o 8 de março. O faço pois acredito que o texto realizado pelas companheiras é firme, direto e informativo. Que transborde revolta em cada uma de vocês, assim como transbordou em mim.


Link original: https://lutafob.org/8567/


"Ser mulher trabalhadora em um mundo patriarcal e violento não é fácil. A superexploração e a violência contra as mulheres do povo são bases fundamentais de sustentação desse sistema capitalista, patriarcal e colonial. No Brasil, a desigualdade social brutal amplia as formas de a violência contra nossos corpos. Ser mulher aqui é ter que estar constantemente com medo de sofrer abusos sexuais, pois concentramos uma altíssima taxa de estupros, assistimos (e por vezes naturalizamos) a barbárie ao ver que aqui a cada 8 minutos uma companheira é violada. Nós, mulheres do povo, convivemos constantemente com notícias de conhecidas, familiares ou amigas que foram assassinadas, uma vez que nosso país ocupa o 5º lugar em feminicídios do mundo, com uma média de 1 feminicídio a cada 9 horas.


Na pandemia da Covid-19, além do aumento no número de feminicídios e violência contra a mulher durante o período da quarentena, assistimos a dura e absurda realidade de sermos o país com maior número de morte de grávidas e puérperas do mundo. O Brasil é responsável por 77% das mortes de grávidas e puérperas por Covid-19 no mundo, segundo estudo da Revista Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (IJGO, na sigla em inglês). Esses dados demonstram como o discurso sobre o direito à vida não passa de uma mentira no Brasil. O direito à vida não chega até nós, mulheres do povo, negras, indígenas, camponesas e faveladas.


Vivemos porque cotidianamente lutamos pela vida, mas esse direito há muito nos foi negado. Das mulheres que morreram grávidas ou logo após o parto por Covid-19 – deixando seus filhos e filhas órfãos – 28% não chegaram sequer a dar entrada em uma UTI e 15% não receberam nenhuma modalidade de assistência ventilatória. O descaso com os trabalhadores na linha de frente da saúde é mais uma faceta da violência contra a mulher. Desde o início da pandemia, mais de um milhão de profissionais de saúde que trabalham na linha de frente nas Américas foram infectados pela doença, e quatro mil morreram, sendo a maioria mulheres.


Não podemos ocultar que o capitalismo e, principalmente o avanço do modelo neoliberal, é diretamente responsável por essas mortes. A assistência às mulheres no serviço público é precária e a consequência disso é que quem mais vai morrer é justo as vítimas de sempre, mulheres negras e pobres. Para se ter uma ideia, a mortalidade materna em mulheres negras foi quase duas vezes maior do que a observada em mulheres brancas, isso sem contar as subnotificações, segundo um estudo da UFSC.


NÓS, MÃES, GRITAMOS PELO DIREITO A VIDA!


A hipocrisia do capitalismo brasileiro não tem limites. Vivemos em um país onde se naturaliza o controle dos corpos das mulheres proibindo o aborto através de um discurso falacioso de “direito à vida” do feto, mas que, por outro lado, pouco se importa com a vida das crianças que nascem. O direito à vida, assim como não existe para as mulheres, gestantes e puérperas pobres, tampouco é garantido para nossos filhos e filhas. Relembremos que a mortalidade infantil no Brasil é altíssima e atinge prioritariamente crianças indígenas (25,1%) e negras (27,8%), chegando em alguns estados como o Amapá, a mortalidade geral a 23%.


Além da mortalidade infantil, sofremos diariamente com a brutalidade policial, o encarceramento em massa e o assassinato de crianças e adolescentes negros e pobres pelas mãos do Estado. A “bala perdida”, o “erro de um policial despreparado”, a prisão injusta, só atingem as nossas crianças e adolescentes nas periferias. Nos revoltamos por cada uma das 12 crianças assassinada pelas mãos do Estado no Rio de Janeiro em 2020. Lutaremos pela memória das mais de 2.215 crianças e adolescentes assassinadas pela polícia nos últimos 3 anos.


Nós, mulheres do povo e lutadoras sindicalistas revolucionárias, nos solidarizamos com cada uma dessas mães que agora chora a morte ou a prisão de seus filhos e filhas. Que viram o Estado racista usurpando dessas crianças o seu direito à vida e a infância. Não deixaremos que o tempo apague a memória dessas vidas tão importantes e que foram tão precocemente roubadas. Não permitiremos mais que destruam nossas famílias. É por isso que lutamos contra os governos, o Estado e os patrões. Por nós, pelos nossos filhos, pelas nossas crianças, pelo direito de viver em paz!


SEMEARAM MEDO, MAS COLHERÃO RESISTÊNCIA E REBELDIA


Sabemos que nós mulheres somos a base de práticas seculares de apoio mútuo e suporte em comunidades trabalhadoras e pobres do Brasil. Nosso sangue e suor tem sido fundamentais para garantir a vida e a existência coletiva de nossa gente. Por isso, nós não pedimos ou imploramos por migalhas do sistema, nós exigimos nossos direitos justos e dignos. Nesse 8 de março, Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras, nós, lutadoras e lutadores do povo, organizadas e organizados na FOB, afirmamos:


1) Que a dor da perda de nossas irmãs, amigas, filhas e filhos não faça aumentar o medo, pelo contrário, que amplie nossa raiva e rebeldia convertida em desejo e ações para a mudança. Nós, mulheres lutadoras, temos a missão de tornar presentes as nossas companheiras e familiares ausentes. Gritar, visibilizar, lutar pelas nossas companheiras assassinadas, desaparecidas, violadas ou injustamente presas. Somos muitas Cláudias, Marianas, somos a criança de 10 anos estuprada pelo padrasto e coagida para manter a gravidez, somos, acima de tudo, aquelas que destruirão o sistema capitalista patriarcal e racista.


2) Nós lutaremos pelo direito à vida. Mas saibamos que este direito só será respeitado quando derrubarmos o Estado, o capital e a exploração machista que coloniza nosso corpo e nossa alma. Por isso, nós chamamos todas a retomar as práticas de autodefesa, que vão desde nos fortalecermos psicologicamente até criarmos redes de apoio para resistir e impedir toda forma de violência contra nós. Chamamos também todas as mulheres trabalhadoras do Brasil a aderir ao chamado da Greve Internacional de Mulheres que vem ocorrendo anualmente em diversos países como Chile, Argentina, México, Espanha e outros. Demonstraremos nossa força nos unindo, resgatando os métodos de luta combativa e provando que sem nós o mundo não funciona.


3) Lutaremos também por nossos direitos reprodutivos. Queremos ter acesso a um pré-natal de qualidade, a um parto humanizado, a vacinas para nós e nossas crianças, pelo fim da violência obstétrica, pela licença maternidade e paternidade, queremos que nossos filhos tenham acesso a creches públicas. Exigimos o fim da violência estatal que aterroriza nossas comunidades. Os baixos salários, o desemprego, a superexploração, o assédio sexual no local de trabalho, a pobreza, a falta de acesso à terra, moradia, a saúde que desestabilizam nossas famílias trabalhadoras. Não permitiremos que isso continue.


ORGANIZADAS E ATIVAS NOSSA LUTA SE TORNA FÉRTIL


Damos força uma para outra e decidimos juntas nossas ações. Cabe a nós, coletivamente, lutar pelo que há de mais sagrado: o nosso direito à vida. Nós faremos o sistema pagar essa conta. Por isso convidamos a todas as mulheres do povo a se unir à nossa construção de baixo para cima, ocupando os espaços organizativos da classe trabalhadora, sejamos liderança e bons exemplos em nossos sindicatos autônomos, comunidades e movimentos e base. Tomemos para nós, para nossas mãos o que é nossa responsabilidade histórica. Lutar pela libertação de nosso povo é um direito e um dever.


VIVA A GREVE INTERNACIONAL DAS MULHERES TRABALHADORAS!


A LUTA REVOLUCIONÁRIA PELA LIBERTAÇÃO DAS MULHERES É A LUTA PELA LIBERTAÇÃO DE TODO O POVO!


FORA BOLSONARO E MOURÃO! GREVE GERAL E REBELIÃO!"


Obrigada por acompanharem o #DoceViagem, até semana que vem, com muita poesia em prosa.

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