• Marcus Vinícius Beck

Você pode dizer que sou um sonhador

Atualizado: Set 20

Música

‘Imagine’ chega aos 50 anos como um hino pacifista que não perdeu a atualidade. Considerado um dos melhores álbuns da história, LP marcou o início da carreira solo de John Lennon, após o término dos Beatles


John Lennon e Yoko Ono em retrato clicado pela fotógrafa Annie Leibovitz - Foto: Reprodução



Eis John Lennon há meio século: com indefectível óculos de aro redondo e vestindo um bizarro uniforme militar, ele senta-se ao piano para tocar “I Don´t Wanna Be a Soldier”. É uma das músicas mais enigmáticas do disco “Imagine” (1971) e que - em certo sentido - anuncia a derrocada do sonho hippie, ao criticar o ímpeto armamentista do Tio Sam. Noutro instante, Lennon e sua companheira, Yoko Ono, jogam sinuca, durante “How Do You Sleep?” - canção na qual alfineta o ex-colega Paul McCartney. O casal aparece ainda passeando num lago, enquanto toca “Jealous Guy”.


Essas cenas - e outras como as em que aparecem o guitarrista George Harrison e Fred Astaire, ator e dançarino - fazem parte de “John Lennon: Imagine - O Filme”, longa-metragem de 70 minutos que Lennon e Yoko dirigiram e estrelaram há 50 anos, na ocasião em que lançaram o disco que leva o nome da famosa canção-pacifista: é possível ver, entre o amor livre e a utopia de um mundo sem delírios assassinos de líderes devotos à guerra, o cotidiano dos dois amantes e conta, como trilha sonora, com as músicas do LP. A produção está disponível no Curta! On, streaming do canal.


Não contente em ser um ex-beatle, Lennon partiu para uma carreira solo em que figurava como um letrista político, uma espécie de membro flutuante da vanguarda internacional e um dos mais ousados roqueiros. Um músico que reverenciava Buddy Holly e Chuck Berry. Jamais se acovardou em mostrar uma incrível capacidade de crescimento, e se alguém ainda hoje incorre no erro de taxá-lo como compositor de versos bobinhos da época do iê-iê-iê, está enganado: John Lennon é um artista que retratou a luta pelos direitos civis, pela liberdade, pelo sonho, uau, que som foda!


Também pudera, sua jornada, fora ou dentro da música, já que em 1971 estava de saco cheio das histerias de Paul McCartney, levou o crítico norte-americano Ben Gerson, na Rolling Stone, a uma pertinente questão: quanto mais Lennon poderia crescer com a “Plastic One Band” (1970), primeiro disco pós-Beatles? “Ainda adolescente, John escolheu o rock como meio artístico e terapêutico. A maneira do rock and roll de resolver os problemas é simplesmente afirmá-los e reafirmá-los e, por meio da exaustão física e emocional, a pressão é temporariamente aliviada”, escreveu Gerson.


Se até o final dos anos 1960 a tendência era rocks como “Strawberry Fields Forever”, “Plastic” representou uma volta radical às origens mais cruas de Lennon. E, claro, seria ingenuidade afirmar que isso não foi pensado e calculado, numa necessidade de o compositor fazer as coisas do seu jeito. Sem perder tempo, a imprensa da época questionara se o estilo adotado, por ser um retrato de uma época, não era - pasmem… - datado. Óbvio, não era. John Lennon, ao lado de sua fiel companheira Yoko, seguiu pela mesma toada em “Imagine” (1971) e “Sometime In The New Yorker" (1972).


É por isso que esses discos são compreendidos como um autorretrato de John Lennon. Ambos orbitam em torno de temas já tratados no primeiro trabalho, porém neles são abordados com menos paixão e menos cuidado também. Em “Plastic One Band”, por exemplo, seu canto é uma arte, pois fica óbvio ali o cuidado. Já “Imagine”, junto com “Sometime”, não tem esses subterfúgios: são, como foi amplamente mostrado ao longo das últimas cinco décadas por pesquisadores, preciosidades do rock - das quais a humanidade necessita para não cair em enrascadas fascistas.



Obra-prima pacifista e anti-guerra, “Imagine” clama para que ousemos vislumbrar um mundo sem religiões e nações - ou melhor, anárquico -, e virou a marca registrada de Lennon pelo manifesto anti-capitalismo conduzido por comoventes notas delicadamente tocadas no piano. A mudança de tom, porém, foi proposital: “Chamo-o de “Plastic Ono” com cobertura de chocolate”, Lennon disse, à época. Pop mas charmoso, é dele a doce “Oh Yoko!” e a cortante “Jealous Guy”, além da cusparada venenosa “Gimme Some Truth”. “Políticos neuróticos, psicóticos, cabeça dura”, canta o ex-beatle.


Na música-título, Lennon nunca usa as palavras “amor” ou “liberdade”, mas pede por unidade e igualdade construídas sobre a ruptura com a ordem social estabelecida: fronteiras geopolíticas e classes econômicas devem ser aniquiladas. Há uma provocação na linguagem adotada: “Imagine que não existem países/ não é uma coisa muito difícil”, sem esquecer do ceticismo após as críticas das quais fora alvo quando fez o protesto contra a Guerra do Vietnã junto com Yoko (onde os dois, pelados, ficavam numa cama à vista do público): “dizem que sou um sonhador/ mas não sou único.”


Curiosamente, o próprio Lennon chegou a definir “Imagine” como “praticamente um manifesto comunista, apesar de eu não ser particularmente comunista e não pertencer a nenhum movimento. (...) Mas como é açucarada, é aceita”. Mesmo assim, o sucesso foi instantâneo e, ao ser lançada, no segundo semestre de 1971, atingiu a terceira posição nas paradas. “Agora eu entendo o que é necessário fazer. É só transmitir a mensagem política com um pouco de mel”, disse, à Rolling Stone.


Originada no berço da beatlemania, é difícil analisar o single como uma poesia, uma vez que a linguagem é coloquial - típica da música pop. O poeta beat Michael McClue, integrante da cena de São Francisco nos anos 1950, afirmou que a estrutura métrica de “Imagine” é uma combinação de “alma branca e coração norte-americano negro do sul”. Segundo ele relatou à RS, teria dado uma canção “muito boa de blues.” Muito se deve, claro, ao esforço do produtor Phil Spector, figura emblemática nos anos 60 que produziu grupos femininos como The Ronettes e The Crystals.


Aos 50 anos, o disco “Imagine” continua um hino contra as tiranias do mundo e, portanto, deve ser ouvido cada vez mais: é nele que encontramos forças para seguir em frente, apesar de o mundo assistir neste início de século 21 líderes devotos ao nazi-fascismo serem alçados ao poder a partir das fragilidades da democracia. John Lennon, provavelmente o beatle mais sonhador, segue essa voz que ecoa há décadas contra as misérias e atrocidades do mundo. Imagine um mundo sem guerra, sem religiões, sem morte, sem governo?

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