• Metamorfose

Voltei, queridos poetas e malditos

Doce Viagem

Foto tirada no dia 28 de junho, Rio de Janeiro, na ação de solidariedade com a população do Morro dos Macacos. Na foto, dona Conceição de 73 anos


Foto e texto: Júlia Lee


Hoje é dia 8 de julho, e eu fico me perguntando quanto tempo se passou desde que cheguei nesse estágio da minha própria mente em considerar que existo tal como acredito que sim. Quiçá, aos poucos me observo sempre presente e constantemente chocada com as linhas de coisas coisantes que se passa dentro desse universo constelar e atômico. Será que teremos bombas ainda esse ano? Ou E.Ts?


Sei lá.


Tal como a própria conjuntura de planetas alinhados no último eclipse, acredito que certamente o que eu entendo nesse tempo não contado vai significar todos os caminhos que estão abertos para o amanhã, por medo de perder a sensação de vida me apego as mudanças sensíveis que minha psique vem traçando, no ritmo dos vendavais que assombram as janelas de vez em quando aqui em Santa Teresa.


Ando apreciando a racionalidade da sobriedade, depois de várias semanas anestesiada em minha própria convulsão de passado-presente. O que de certa forma me fez sentir dia após dia quem eu era, ou aquilo que eu deveria ser, não sei dizer ainda. O que consigo analisar são as mudanças, eternas e serenas de que a realidade que entendo é minha para moldar. Algo que fortemente é influenciado pela semiótica distópica que vivemos no exterior da coletividade. Me sinto afundando com a esperança de mudança enquanto resgato os métodos que conheço há tempos, viver e ser acima de tudo. Não se calar e continuar tentando. Foda-se suas leis. Não quero te engolir e morrer sem nome. Existimos, ainda.


Mas você sabe que tenho fé, sempre tive. Continuo aceitando a racionalidade sensível dos fatos que me rodeiam. Apesar de me sentir sufocada, algo mudou, ou está mudando. Eu vi um filme hoje, “as mulheres do século 20”, o mais curioso é me lembrar do porque queria fazer cinema, contar histórias que fizessem as pessoas se identificarem com o caos que é existir e pensar a vida. Algo de fato mudou. O que é um livro sobre feminismo na vida de um jovem de 15 anos que vive somente com mulheres? O que é uma mulher autodestrutiva se encontrando? Seja aos 55, 26 ou 15. Será que somos aquilo que estamos nos tornando?


Não sei afirmar ainda no que acredito.


Quiçá, esse seja todo o processo. Faltam 9 dias para mais um ciclo em volta do Sol, e me pergunto quem eu quero me tornar quando esse momento que vivo agora acabar, morrer para dar ferramenta para uma nova terra semear um renascimento fértil e pronto para o novo. Já lhe disse algumas vezes que gosto de morrer, faz a vontade de viver pulsar latentemente e me impulsiona questionar e reencontrar o motivo de existir. Quero construir o novo, pedaço por pedaço.


Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Sinto saudade de voar pelos ares antes não navegados, e sei que de certa forma estamos todos sobrevoando nossos próprios hábitos e reações transmutando em algo que não fazemos a menor ideia de onde irá nos levar. Parece até pegadinha, eu rio às vezes no calar da noite sobre a sensação de futuro esquecida pela consciência coletiva, de forma trágica também, de certa forma.


Ora, se não temos certeza de um futuro tal como era o passado, podemos simplesmente projetar a oportunidade de derrocada do normal, do status quo careta e chato da contemporaneidade. Se queremos nos voltar ao externo que seja minimamente selvagem, inconstantemente mutante e reluzente de vontade. Temos tanta juventude pulsando em nossas veias, subindo pelas paredes tortas de quartos apertados, apartamentos sufocantes e livres. Temos vida ainda para viver.