• Marcus Vinícius Beck

Ziggy cantava pra valer

Música

Morte do cantor David Bowie completa neste domingo cinco anos. Artista marcou a cultura pop na segunda metade do século 20


Pintura do personagem Ziggy Stardust feita pela artista visual Olga Koval - Foto: Reprodução



Era sua marca: um olho esverdeado, enquanto o outro alternava entre verde e laranja. E o cabelo? Sempre pintado com cor que lembrava uma cenoura lustrosa empinado acima da sobrancelha. Lá pelos idos de mil novecentos e setenta e poucos, David Bowie criou o roqueiro andrógino bissexual Ziggy Stardust, protagonista do álbum-conceitual “The Rise And The Spiders From Mars”, clássico LP do rock lançado em 1972.


O jornalista Timothy Ferris, numa das entrevistas mais memoráveis já publicadas na Rolling Stone, em 72, descreveu a autêntica expressividade de Bowie: “Sua pele lisa parece esticada, ligando cada osso como se fosse um fio de telégrafo passando por cada poste. Ele muda de expressão constantemente, como o vento soprando sobre a superfície de um lago, como eletricidade estática. Tudo na aparência parece extremo”.


Bowie, de fato, é uma das personalidades mais fortes a surgirem na estira do sucesso de Rolling Stones, Beatles, Chuck Berry e Little Richards. É um daqueles artistas que comandam o olhar do público e acalentam nossos ouvidos. Assim que se posta diante da platéia, sua teatralidade brilhantemente controlada saltava à frente de quem o via e sentia a potência dos riffs e a energia emanada pelo som de seu glam rock.


Mas, Bowie não morreu em 2016 após lutar contra um câncer? Quer dizer... morreu... artistas, eu sei, não morrem... apenas saem de cena. No caso de Bowie ele saiu e deixou uma obra-prima, “Blackstar”, para a posteridade, não? Deixou, yes. E que vida, a dele.


Íntegra do disco 'The Rise And The Spiders From Mars', lançado em 1972



Nascido num bairro barra-pesada no sul de Londres, Davis Jones - ainda menino - inventou de se meter numa briga, e levou um soco que por pouco não lhe custou o olho esquerdo. Os procedimentos cirúrgicos pelos quais precisou ser submetido foram responsáveis pela tonalidade característica que seus olhos tinham, como se fosse um desses gatos angorás cujas iris possuem duas cores e encantam a todos ao seu redor.


Com formação em teatro e tendo feito pontas em filmes do cineasta Martin Scorsese, o artista passou durante década de 1960 por um período infeliz tralhando com publicidade. Mas como esse ofício não o agradava, resolveu formar o grupo David Jones and the Lower Third. Quando o Davis Jones conquistou certo reconhecimento na Inglaterra, ele então mudou de sobrenome, passando a ser conhecido como David Bowie. Escolha para lá de assertiva.


Foi com esse nome que ele gravou quatro discos comercialmente fracassados: “David Bowie” (1967), “David Bowie” (1969), “The Mand Who Sold The World” (1970) e “Hunky Dory” (1971). Neste período, Bowie compôs músicas que depois passaram a ser vistas como sucessos de sua discografia, como “Space Oddity”, de 69.


Em 1972, com o personagem Ziggy Stardust, concebeu um dos principais discos da história do rock. Gravado com Bowie doidão à base de cocaína, “Spiders From Mars” deu vida ao astro do rock bisexual e andrógino que acabou quase se confundindo com própria imagem do seu idealizador: o personagem só não se tornou maior que Bowie porque o artista estava em constante mudança, e ao longo dos anos 1970 conseguiu a proeza de emplacar pérolas como “Aladdin Sane” (1973), “Pin Ups” (1973), “Dimond Dogs” (1974) nas paradas de sucesso.


Essa constante mudança de personalidade aliada à inquietude de sua inventiva mente foi responsável por tornar Bowie conhecido como Camaleão do Rock. Afinal, o artista se transmutava tendo mesma facilidade com a qual acendo um cigarro numa noite de angústia com a miséria humana. “Eu ouvi telefones, opera, melodias favoritas/ eu vi meninos, brinquedos, ferros elétricos e TVs/ meu cérebro doía como um armazém/ que não tinha espaço vago”, canta, na faixa “Five Years”, que abre “Ziggy Stardust”.


De acordo com o biógrafo David Buckley, em “Strange Fascination: David Bowie: The Definitive Story”, a dieta do músico em meados da década de 70 consistia em pimentas vermelhas, cocaína e leite integral. Anos depois, em entrevistas, o artista confessaria que se lembrava pouco do que tinha se passado nesta época: Bowie chegou a sofrer overdoses, além de ser um beberrão contumaz e um fumante inveterado.


Faixa 'A New Carrer In a New Town', do LP 'Lown', da trilogia de Berlim



Então, tentando se recuperar dos vícios, o inglês fez a fabulosa sequência que entrou para a história como a trilogia de Berlim, com “Low” (1977), “Heros” (1977) e “Lodger” (1979). Se o primeiro álbum retrata a recuperação de Bowie do pó a partir das dificuldades e as dores de um homem, o segundo mostra uma cidade dividida pela polaridade da Guerra Fria. Já o terceiro critica aos valores da civilização ocidental.


Esses trabalhos renderam composições como “Sound And Vision”, “Be My Wife” e “A New Career In a New Town”, bem como “Heroes”, “Beauty And The Beast” e “African Night Flight”. Todas hoje são consideradas objeto de culto entre os fãs do artista.


Nos anos 1980, surfando na onda da new wave e da dance music, o artista lançou o LP “Let´s Dance” (1983), que foi indicado para o Grammy de Álbum do Ano, em 1984, mas perdeu para "Thriller", de Michael Jackson. “Modern Love”, “Chinva Girl” e “Let´s Dance” se tornaram os carros-chefes do disco. Nas décadas seguintes, entre um trabalho e outro, Bowie passou a limpo sua carreira em “Reality” (2003) e só voltou aos estúdios dez anos depois, com “The Next Day” (2013).


Como disse o Camaleão do Rock profeticamente ao jornalista Timothy Ferris, da Rolling Stone, em 1972: “Há uma volta do espírito do entretenimento. Mas há também uma mistura de relevância social, é bem difícil determinar se os próximos artistas vão existir como figuras ainda maiores por causa do mérito como entretenimento ou se terão esse status grandioso por causa de algum tipo de valor social mais nobre”.


A obra de Bowie, sim, é nobre. E, cara, que falta ele faz nesse mundo careta e repressor.

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